domingo, junho 24
dia-a-dia
Os dias parecem sempre o mesmo dia. Nada de novo, nada de velho, nada de nada. Nada na geladeira, nada na televisão, nada acontece. Vida vazia. Mente abarrotada, sufocada por velhas recordações e por uma vontade silenciosa – quase muda – de mudar alguma coisa. Por fora apatia, por dentro inquietação contínua - ininterrupta - como um mal de alzheimer... Que não deixa dormir, que insiste em acordar.
quinta-feira, maio 31
vícios e virtudes
Acordo às seis da tarde com a sensação de que dormi por uma semana. Puta que pariu, só consigo repetir mentalmente um sonoro puta que pariu. Mais um dia sem ver a luz do sol. Antes tivesse enchido a cara e acordado ainda bêbado com o quarto cheirando a álcool e as roupas espalhas pelo chão. Nem pra me embriagar tive coragem de enfrentar o frio que faz lá fora. Vento frio de um Rio de Janeiro frio em pleno aquecimento global. Aquecimento global fodido... Não aquece a cidade muito menos a vida de um pobre e sedentário notívago tentando mudar sua rotina de internet, coca-cola, café e punheta. Esse frio tem me tirado até a fome, impossível me motivar a mudar de vida. Parar de beber, acordar cedo, dar aquela corrida matinal, obviamente precedida de um alongamento, e inebriado por minhas próprias virtudes, respirar o incomparável perfume da manhã... Que merda! Um abstêmio que acorda cedo, se alonga antes de correr, e cheio de si, respira profundamente o ar da alvorada. Como poderia confiar em mim mesmo? Alguém assim só poderia ser um mentiroso, um tipo cínico de terno de grife, dono de um carro preto importado, uma pasta de couro de jacaré e de uma sala em um belo edifício comercial patrimônio de uma grande multinacional do petróleo. Certamente eu faria contribuições mensais para os órfãos de alguma guerra civil na África, coincidentemente, continente mais explorado pela empresa dona do prédio bonito em que eu tenho uma vaga para o meu carro preto e uma sala com uma grande mesa onde coloco pra descansar diariamente meu pequeno jacaré taxidermizado. Acho que confiaria mais em mim chegando em casa pela manhã, bêbado, trocando as pernas e prendendo a respiração, certo de que se repirasse fundo, vomitaria. Talvez vomitasse pela ânsia provocada pelo cheiro inconfundível da hipocrisia matutina, ou simplesmente pela quantidade de cerveja barata ingerida na tentativa de esquecer minha carência de virtudes e abundância de vícios. Também poderia vomitar por não ter um terno, não ter um carro, ou por compaixão aqueles pobres jacarés transformados em pastas de gosto duvidoso. Talvez vomitasse meus próprios vícios e virtudes na tentativa de distingui-los em meio a cerveja, a bile e aos amendoins. Ou, como um simples mortal, vomitasse na tentativa inócua de amenizar uma puta ressaca a caminho. É... Melhor voltar pra internet...
terça-feira, maio 22
quero ser feliz
Quero constituir família: mulher, filhos, casa, jardim
Quero uma secretária gostosa, que faça de tudo por mim
Quero trabalho, lazer, quero uma vida normal
Com muito sexo, orgia, tudo bem convencional
Quero liberdade de escolha, liberdade de expressão
Quero, em liberdade, responder meus processos por fraude, sonegação
Quero aparecer na TV, comer uma gostosa do BBB
E em minhas férias na França, fazer um curso de Sommelier
Quero todo ano pular carnaval em Salvador
E sem cerimônia, dar 3 mil reais no abadá do Armandinho, Osmar e Dodô
Em revistas, quero meu dia-a-dia exposto
Quero financiar projeto cultural pra pobre, e assim pagar menos imposto
Quero me filiar ao PSDB, com móveis de assinatura, mobiliar o meu AP
E fumar diariamente ervas aromáticas no meu narguile
Na base da propina, quero ganhar licitação
Construir belas e superfaturadas pontes, lá no sul do Maranhão
No Rio, quero fundar uma ONG, fazer projeto social
E encher meu cu de dinheiro, com apoio de uma multinacional
p.s. Texto gentilmente cedido para os Skrotes Boys of the Catland
Quero uma secretária gostosa, que faça de tudo por mim
Quero trabalho, lazer, quero uma vida normal
Com muito sexo, orgia, tudo bem convencional
Quero liberdade de escolha, liberdade de expressão
Quero, em liberdade, responder meus processos por fraude, sonegação
Quero aparecer na TV, comer uma gostosa do BBB
E em minhas férias na França, fazer um curso de Sommelier
Quero todo ano pular carnaval em Salvador
E sem cerimônia, dar 3 mil reais no abadá do Armandinho, Osmar e Dodô
Em revistas, quero meu dia-a-dia exposto
Quero financiar projeto cultural pra pobre, e assim pagar menos imposto
Quero me filiar ao PSDB, com móveis de assinatura, mobiliar o meu AP
E fumar diariamente ervas aromáticas no meu narguile
Na base da propina, quero ganhar licitação
Construir belas e superfaturadas pontes, lá no sul do Maranhão
No Rio, quero fundar uma ONG, fazer projeto social
E encher meu cu de dinheiro, com apoio de uma multinacional
p.s. Texto gentilmente cedido para os Skrotes Boys of the Catland
segunda-feira, maio 14
bicicleta
De Castigo. Sentado. No canto da sala. A bicicleta roubada. Tento vídeo-game, bola, totó, ping-pong. Qualquer coisa pro tempo passar. Tento. Mas me levaram o brinquedo preferido. Me tiraram a vontade de brincar. Na rua, com amigos, brinco, mas pelo simples dever de brincar. Brinco. Mas brinco pensando nela. Brinco até ela voltar.
quinta-feira, maio 10
cenas do rio de janeiro - nº 1
Manhã de quinta-feira. Avenida Rio Branco. Entre o corre-corre de gravatas, guarda-chuvas e entregadores de papel, dois guardas municipais parecem conversar.
- Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. Ele vibra! Ele é fibra! Muita libra! Já pesou? Flamengo até morrrrrrrer eu sou. - cantava entusiasmadamente o primeiro guarda.
Silêncio.
- Hahahahahahahahaha! - gargalhou ironicamente o primeiro guarda.
O segundo guarda permanecia calado.
Noite de quarta-feira. Maracanã. 57 mil torcedores. Flamengo 2 x 0 Defensor. Flamengo eliminado da Copa Libertadores da América pela soma de resultados.
- Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. Ele vibra! Ele é fibra! Muita libra! Já pesou? Flamengo até morrrrrrrer eu sou. - cantava entusiasmadamente o primeiro guarda.
Silêncio.
- Hahahahahahahahaha! - gargalhou ironicamente o primeiro guarda.
O segundo guarda permanecia calado.
Noite de quarta-feira. Maracanã. 57 mil torcedores. Flamengo 2 x 0 Defensor. Flamengo eliminado da Copa Libertadores da América pela soma de resultados.
terça-feira, maio 8
42 - Circular - Via São Lourenço
Todas as segundas e quintas a mesma coisa, aulas de inglês. Só tinha 11 anos e tinha que ir às aulas de inglês. Duas vezes por semana. Uma hora e meia de aula. Mas pra quê? Por que perder tempo aprendendo aquela merda de língua? Não conhecia nenhum inglês, mal sabia onde ficava a Inglaterra, nunca tinha ouvido nada do Ramones, muito menos enchido a cara de Guinness.
Meu pai dizia que era importante. No início acreditei nele. No início. Os indiozinhos me fizeram mudar de opinião. O que poderia ser mais idiota que decorar uma música sobre indiozinhos? Lembro da minha primeira professora de inglês: cabelo loiro, pele morena de sol, olhos verdes e óculos azuis. Ela cantava a música dos indiozinhos. Eu boquiaberto olhava pra ela. A turma “Step One” seguia cantando...
“One little, two little, three little Indians
Four little, five little, six little Indians
Seven little, eight little, nine little Indians
Ten little Indian boys.
Ten little, nine little, eight little Indians
Seven little, six little, five little Indians
Four little, three little, two little Indians
One little Indian boy.”
Será que mais ninguém questionava a imbecilidade daquela música? Provavelmente todos ficaram satisfeitos com a explicação paterna.
- Estudar inglês é importante pro seu futuro, meu filho.
Se naquela época meu pai dissesse que em um futuro próximo eu poderia conhecer garotas loiras, de pele morena, olhos verdes e óculos azuis, e que essas garotas poderiam somente entender a língua de Oscar Wilde, e que, provavelmente, só conseguiria fodê-las se estudasse inglês desde a 5ª série, teria matado menos aulas dando voltas no “42 - Circular - Via São Lourenço”.
Meu pai dizia que era importante. No início acreditei nele. No início. Os indiozinhos me fizeram mudar de opinião. O que poderia ser mais idiota que decorar uma música sobre indiozinhos? Lembro da minha primeira professora de inglês: cabelo loiro, pele morena de sol, olhos verdes e óculos azuis. Ela cantava a música dos indiozinhos. Eu boquiaberto olhava pra ela. A turma “Step One” seguia cantando...
“One little, two little, three little Indians
Four little, five little, six little Indians
Seven little, eight little, nine little Indians
Ten little Indian boys.
Ten little, nine little, eight little Indians
Seven little, six little, five little Indians
Four little, three little, two little Indians
One little Indian boy.”
Será que mais ninguém questionava a imbecilidade daquela música? Provavelmente todos ficaram satisfeitos com a explicação paterna.
- Estudar inglês é importante pro seu futuro, meu filho.
Se naquela época meu pai dissesse que em um futuro próximo eu poderia conhecer garotas loiras, de pele morena, olhos verdes e óculos azuis, e que essas garotas poderiam somente entender a língua de Oscar Wilde, e que, provavelmente, só conseguiria fodê-las se estudasse inglês desde a 5ª série, teria matado menos aulas dando voltas no “42 - Circular - Via São Lourenço”.
quinta-feira, maio 3
fingi na hora rir
Hoje eu quis brincar de ter ciúme de você
Mas sem por que meu coração me avisou que não
Fingi na hora rir
Talvez por aqui estar tão longe de você pra te dizer
Aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão?
Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração
Ou anda sozinha, me esperando pra dizer coisas de amor
Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor
Quantas horas mais vão me bater até você chegar?
Aqui meu lar deixou de ser aquilo que um dia eu construí
E eu fico sozinho, esperando pra trazer você para mim
Sofro por saber que não sou eu quem vai te convencer
Que cada dia a mais é um a menos pro encontro acontecer
E eu fico sozinho, esperando por você, meu bem-querer
Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais por que
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor
Los Hermanos – Marcelo Camelo
"A banda Los Hermanos comunica a decisão de entrar em recesso por tempo indeterminado. Por conta disso não há previsão de lançamento de um novo disco."
Que o "tempo" não seja definitivo...
Mas sem por que meu coração me avisou que não
Fingi na hora rir
Talvez por aqui estar tão longe de você pra te dizer
Aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão?
Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração
Ou anda sozinha, me esperando pra dizer coisas de amor
Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor
Quantas horas mais vão me bater até você chegar?
Aqui meu lar deixou de ser aquilo que um dia eu construí
E eu fico sozinho, esperando pra trazer você para mim
Sofro por saber que não sou eu quem vai te convencer
Que cada dia a mais é um a menos pro encontro acontecer
E eu fico sozinho, esperando por você, meu bem-querer
Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais por que
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor
Los Hermanos – Marcelo Camelo
"A banda Los Hermanos comunica a decisão de entrar em recesso por tempo indeterminado. Por conta disso não há previsão de lançamento de um novo disco."
Que o "tempo" não seja definitivo...
segunda-feira, abril 23
ditado
Abaixo, segue um texto ditado pela professora aos alunos de uma turma da 5ª série do 1º grau, em uma escola estadual, no município de Niterói – RJ.
Suas qualidades
“Algumas boas qualidades você já descobriu que existem dentro de você. Pode ser um bom atleta, alguém chegado às artes, uma pessoa que gosta de ajudar os outros. Ou, talvez, o humor seja o seu forte e você diverte as pessoas, brincando e contando piadas. Ou ainda você pode ser um cidadão com espírito de liderança, preocupado com os problemas de sua escola, de sua cidade e até de seu país.
Enfim, você sabe muito bem quais são suas qualidades. Pense nelas e fale daquilo que é o seu forte.”
O texto acima, ditado pela professora, deveria ser escrito pelos alunos em uma folha de caderno, o que permitiria a avaliação de suas capacidades de ouvir, assimilar e passar o que ouviram para o papel, ou seja, uma avaliação do nível de compreensão e domínio da língua portuguesa. Segue abaixo, a transcrição do texto supracitado por um dos alunos da turma.
Sua quelidade
“Auguas boas quelidades você vadis culeou que e zida derodereortê. Podarcê um bou atrata, anha xagado as arte, um pesoa que gorta de aguda as otras. O, teureo, una jega aseu e reage digada as pessa, e cater diada. O aida você podice um cidadão com espirato da lidaresa, preucoda com prabiana de sua escola, de sua cidade a tecia ateis.
Ífim, você salca muitobea que são suas quelidade. Pecinalas e falas da quelo que eufuta.”
O aluno responsável pelas desconexas palavras acima concluiu o primário em uma escola municipal de Niterói. O município de Niterói tem como política educacional a não reprovação de seus alunos, ou seja, todo aluno, capacitado ou não, deve avançar paras as séries seguintes, mesmo não apresentando condições mínimas para acompanhar os ensinamentos que lhes serão apresentados futuramente.
Esta é a política educacional de um dos municípios mais ricos de um dos estados mais ricos do país. Política de um governo do Partido dos Trabalhadores. Política do governo de um Prefeito-Professor. Política de um governo que se diz comprometido com a questão social. Uma política que gera saldos “positivos” de aprovação, mas que esconde um saldo negativo e irreparável na educação de alguns de seus alunos, que terminam o primário praticamente analfabetos.
Suas qualidades
“Algumas boas qualidades você já descobriu que existem dentro de você. Pode ser um bom atleta, alguém chegado às artes, uma pessoa que gosta de ajudar os outros. Ou, talvez, o humor seja o seu forte e você diverte as pessoas, brincando e contando piadas. Ou ainda você pode ser um cidadão com espírito de liderança, preocupado com os problemas de sua escola, de sua cidade e até de seu país.
Enfim, você sabe muito bem quais são suas qualidades. Pense nelas e fale daquilo que é o seu forte.”
O texto acima, ditado pela professora, deveria ser escrito pelos alunos em uma folha de caderno, o que permitiria a avaliação de suas capacidades de ouvir, assimilar e passar o que ouviram para o papel, ou seja, uma avaliação do nível de compreensão e domínio da língua portuguesa. Segue abaixo, a transcrição do texto supracitado por um dos alunos da turma.
Sua quelidade
“Auguas boas quelidades você vadis culeou que e zida derodereortê. Podarcê um bou atrata, anha xagado as arte, um pesoa que gorta de aguda as otras. O, teureo, una jega aseu e reage digada as pessa, e cater diada. O aida você podice um cidadão com espirato da lidaresa, preucoda com prabiana de sua escola, de sua cidade a tecia ateis.
Ífim, você salca muitobea que são suas quelidade. Pecinalas e falas da quelo que eufuta.”
O aluno responsável pelas desconexas palavras acima concluiu o primário em uma escola municipal de Niterói. O município de Niterói tem como política educacional a não reprovação de seus alunos, ou seja, todo aluno, capacitado ou não, deve avançar paras as séries seguintes, mesmo não apresentando condições mínimas para acompanhar os ensinamentos que lhes serão apresentados futuramente.
Esta é a política educacional de um dos municípios mais ricos de um dos estados mais ricos do país. Política de um governo do Partido dos Trabalhadores. Política do governo de um Prefeito-Professor. Política de um governo que se diz comprometido com a questão social. Uma política que gera saldos “positivos” de aprovação, mas que esconde um saldo negativo e irreparável na educação de alguns de seus alunos, que terminam o primário praticamente analfabetos.
segunda-feira, abril 16
ridículo e só
Só conseguia me sentir um idiota. Minha vontade era ficar o tempo todo debaixo da mesa do bolo, ou quem sabe escondido na caixa dos presentes. Me sentia o mais idiota entre todos os garotos idiotas da 4ª série. Por que eu não podia usar roupas normais? Um tênis normal, uma calça jeans normal, uma camisa colorida qualquer com alguma frase estúpida em inglês? Toda festa de aniversário era uma espécie de Segunda, Terceira, Quarta Comunhão. Ela separava meu cinto e meus sapatos brancos de verniz, minhas meias finas e brancas que iam até os joelhos, minha bermuda branca de pregas e minha camisa branca cheia de botões.
Antes aquela fosse minha Primeira Comunhão e não a festa de aniversário de um colega de escola. A julgar pela minha aparência, estaria no lugar certo, onde poderia expiar, reservadamente em um confessionário, meus primeiros pecados.
- Me perdoe, padre, pois eu pequei.
- Qual seu pecado, meu filho?
- Desejei arremessar pela janela do meu quarto toda essa roupa ridícula e branca que estou vestindo, e junto à roupa, padre, também desejei arremessar a minha mãe.
A parte ruim seria a quantidade infinita de Ave Maria e Pai Nosso que viriam depois, mas nada comparável ao castigo de estar em uma festa fantasiado de “Gasparzinho Envernizado” enquanto todos seus amigos ostentam tênis novos, calças jeans e camisas coloridas. Talvez eu fosse o único aluno do colégio a agradecer secretamente pela existência do uniforme escolar obrigatório: tênis de couro preto, meia preta, bermuda jeans e camisa verde. Era bom chegar ao colégio e estar vestido como todo mundo. A idéia de que todas as festas de aniversário também pudessem ter uniformes obrigatórios me empolgava. Se os garçons tinham uniformes obrigatórios, por que não os convidados? Intimamente, invejava os garçons. Podiam parecer ridículos com aqueles paletós brancos e suas gravatas pretas de borboleta, mas não estavam sós. Nas festas, eu era sempre o único de sapatos brancos de verniz. Ridículo e só.
Antes aquela fosse minha Primeira Comunhão e não a festa de aniversário de um colega de escola. A julgar pela minha aparência, estaria no lugar certo, onde poderia expiar, reservadamente em um confessionário, meus primeiros pecados.
- Me perdoe, padre, pois eu pequei.
- Qual seu pecado, meu filho?
- Desejei arremessar pela janela do meu quarto toda essa roupa ridícula e branca que estou vestindo, e junto à roupa, padre, também desejei arremessar a minha mãe.
A parte ruim seria a quantidade infinita de Ave Maria e Pai Nosso que viriam depois, mas nada comparável ao castigo de estar em uma festa fantasiado de “Gasparzinho Envernizado” enquanto todos seus amigos ostentam tênis novos, calças jeans e camisas coloridas. Talvez eu fosse o único aluno do colégio a agradecer secretamente pela existência do uniforme escolar obrigatório: tênis de couro preto, meia preta, bermuda jeans e camisa verde. Era bom chegar ao colégio e estar vestido como todo mundo. A idéia de que todas as festas de aniversário também pudessem ter uniformes obrigatórios me empolgava. Se os garçons tinham uniformes obrigatórios, por que não os convidados? Intimamente, invejava os garçons. Podiam parecer ridículos com aqueles paletós brancos e suas gravatas pretas de borboleta, mas não estavam sós. Nas festas, eu era sempre o único de sapatos brancos de verniz. Ridículo e só.
quarta-feira, março 28
era uma vez uma arte...
Das ruas para as vitrines – Grifes, arquitetos e galerias de arte rendem-se ao boom do grafite http://veja.abril.com.br/vejarj/100506/capa.html
“A bonequinha de traços orientais e cabelo esvoaçante espalhou-se de muro em muro. Hoje, é um FENÔMENO de MARKETING. Criada pelo grafiteiro Tomaz Viana, o ‘Toz’, 30 anos, a boneca Niña já decora apartamentos à beira-mar, ilustra camisetas e virou obra de arte à venda na Galeria Haus Contemporânea.”
“Nos últimos anos, o grafite carioca vem extrapolando os limites dos muros, ganhou STATUS e tornou-se OBJETO de CONSUMO de adolescentes e jovens.”
“Na mostra Artefacto do ano passado, o arquiteto Geraldo Lamego projetou um home theater em que se destacava uma parede coberta pelo grafite abstrato de Ismael Vagner de Lima, 26 anos, o ‘Smael’.”
“No circuito das artes plásticas, telas de grafiteiros cariocas chegam a VALER 10.000 REAIS.”
“Um de seus painéis foi escolhido para enfeitar o muro da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Já pintou várias vitrines e fez cenário para a estilista Isabela Capeto. Os vestidos de Adriana Barra, para quem (Mateu) criou estampas em parceria com a artista Renata Americano, chegam a CUSTAR QUASE 2.500 REAIS.”
Era uma vez uma arte...
Arte de rua, arte de protesto, de contestação!
Arte “rotulada” de vandalismo, pirraça juvenil, rebeldia sem causa!
Arte marginal, libertária, transformadora, revolucionária... Arte!
Hoje, o que era underground enfeita parede de sala de estar de madame, é cenário de “Open House” regado a prosecco e pastrami... O que era contracultura agora é estampa de vestido de 2500 reais, de bermuda de 130 e guarda-chuva de 350, é mural de quarto de criança rica, é objeto de consumo das massas, é cult, é moda...
Já dizia o Malvadinho: “Comprar artistas, o esporte predileto dos engolidores de mundo.” www.malvados.com.br
“A bonequinha de traços orientais e cabelo esvoaçante espalhou-se de muro em muro. Hoje, é um FENÔMENO de MARKETING. Criada pelo grafiteiro Tomaz Viana, o ‘Toz’, 30 anos, a boneca Niña já decora apartamentos à beira-mar, ilustra camisetas e virou obra de arte à venda na Galeria Haus Contemporânea.”
“Nos últimos anos, o grafite carioca vem extrapolando os limites dos muros, ganhou STATUS e tornou-se OBJETO de CONSUMO de adolescentes e jovens.”
“Na mostra Artefacto do ano passado, o arquiteto Geraldo Lamego projetou um home theater em que se destacava uma parede coberta pelo grafite abstrato de Ismael Vagner de Lima, 26 anos, o ‘Smael’.”
“No circuito das artes plásticas, telas de grafiteiros cariocas chegam a VALER 10.000 REAIS.”
“Um de seus painéis foi escolhido para enfeitar o muro da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Já pintou várias vitrines e fez cenário para a estilista Isabela Capeto. Os vestidos de Adriana Barra, para quem (Mateu) criou estampas em parceria com a artista Renata Americano, chegam a CUSTAR QUASE 2.500 REAIS.”
Era uma vez uma arte...
Arte de rua, arte de protesto, de contestação!
Arte “rotulada” de vandalismo, pirraça juvenil, rebeldia sem causa!
Arte marginal, libertária, transformadora, revolucionária... Arte!
Hoje, o que era underground enfeita parede de sala de estar de madame, é cenário de “Open House” regado a prosecco e pastrami... O que era contracultura agora é estampa de vestido de 2500 reais, de bermuda de 130 e guarda-chuva de 350, é mural de quarto de criança rica, é objeto de consumo das massas, é cult, é moda...
Já dizia o Malvadinho: “Comprar artistas, o esporte predileto dos engolidores de mundo.” www.malvados.com.br
sábado, março 24
papo de irmão
Ei, e aí?
E aí o quê?
Tá recuperado?
Recuperado?! Recuperado de quê?
Já esqueceu, idiota?
Ah, tô melhor... Mas sabe como é?!
Não, não sei...
Ihhh... Se não sabe também, foda-se.
Porra! Que mau humor, hein!
Mau humor é o caralho, fica enchendo a porra do saco com pergunta idiota.
Beleza, não pergunto mais. Você que se foda sozinho.
Ihhhh, vai pra puta que pariu, vai. Sai daqui...
(silêncio) Tchau, viadinho...
Tchau é o caralho!
E aí o quê?
Tá recuperado?
Recuperado?! Recuperado de quê?
Já esqueceu, idiota?
Ah, tô melhor... Mas sabe como é?!
Não, não sei...
Ihhh... Se não sabe também, foda-se.
Porra! Que mau humor, hein!
Mau humor é o caralho, fica enchendo a porra do saco com pergunta idiota.
Beleza, não pergunto mais. Você que se foda sozinho.
Ihhhh, vai pra puta que pariu, vai. Sai daqui...
(silêncio) Tchau, viadinho...
Tchau é o caralho!
domingo, março 18
cada vez melhor
Cada vez melhor, a cada dia melhores e novas notícias. A esperança cresce, a fé se restabelece. A força da gravidade já não se faz sentir em nossos ombros como antigamente...
O salário mínimo deverá subir de R$ 350 para R$ 380. A Revista O Globo de domingo e a sua seção Achados Imperdíveis trazem cada vez mais achados imperdíveis e indispensáveis para nós, meros mortais: “Abotoaduras de prata de lei – R$ 983 na Montblanc”, “Tábua de madeira da Tutto per la Casa – R$ 198”, “Cintos da Patachou à venda na Vila das Flores – R$ 185”, “Carteira da Kostuum – R$ 280”.
Realmente está tudo melhor, mas, infelizmente, nem tudo são flores ou abotoaduras de prata de lei da Montblanc: a poluição atmosférica e a destruição da camada de ozônio ainda tiram o sono do brasileiro comum...
Porém, com esse salto triplo twist carpado de R$ 30 no salário mínimo nacional, um trabalhador, que em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social venha a ter a remuneração especificada em R$ 380 poderá comprar um Sundown 50 nos Supermercados Pão de Açúcar pela bagatela de R$ 30,35, sem comprometer seu orçamento mensal. E, ao economizar por mês o equivalente a R$ 349,65* desse mesmo orçamento, conseguirá realizar o sonho do automóvel zero quilômetro próprio e bi-combustível em menos de 6 anos.
Realmente, está tudo melhor, cada vez melhor!
*R$ 380 – R$ 30,35 do Sundown 50 = R$ 349,65.
O salário mínimo deverá subir de R$ 350 para R$ 380. A Revista O Globo de domingo e a sua seção Achados Imperdíveis trazem cada vez mais achados imperdíveis e indispensáveis para nós, meros mortais: “Abotoaduras de prata de lei – R$ 983 na Montblanc”, “Tábua de madeira da Tutto per la Casa – R$ 198”, “Cintos da Patachou à venda na Vila das Flores – R$ 185”, “Carteira da Kostuum – R$ 280”.
Realmente está tudo melhor, mas, infelizmente, nem tudo são flores ou abotoaduras de prata de lei da Montblanc: a poluição atmosférica e a destruição da camada de ozônio ainda tiram o sono do brasileiro comum...
Porém, com esse salto triplo twist carpado de R$ 30 no salário mínimo nacional, um trabalhador, que em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social venha a ter a remuneração especificada em R$ 380 poderá comprar um Sundown 50 nos Supermercados Pão de Açúcar pela bagatela de R$ 30,35, sem comprometer seu orçamento mensal. E, ao economizar por mês o equivalente a R$ 349,65* desse mesmo orçamento, conseguirá realizar o sonho do automóvel zero quilômetro próprio e bi-combustível em menos de 6 anos.
Realmente, está tudo melhor, cada vez melhor!
*R$ 380 – R$ 30,35 do Sundown 50 = R$ 349,65.
sábado, março 10
janela sobre as proibições
"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."
Eduardo Galeano, em As Palavras Andantes.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."
Eduardo Galeano, em As Palavras Andantes.
terça-feira, dezembro 26
medo
Tenho medo. Medo de ter medo, medo de não ter mais medo de nada. Medo de sentir o que sinto e medo desse sentimento não ser mais sentido por mim. Tenho medo da distância, medo da distância aumentar.
Sinto-me sozinho, ausente de mim mesmo. Não compartilho nem da minha própria presença. Meu corpo está aqui, minha mente está longe, tentando pensar o melhor, tentando.
O clima de despedida somado ao clima de Natal não ajudam, não me trazem confiança, mas incredulidade. Sim, ser crédulo nunca me foi característica, mas seu oposto, agora, me absorve o pensar.
Queria poder correr para o tempo passar, queria fazer com que correndo o tempo voasse... Correria sem parar, sem pensar, somente correria.
Tenho medo do tempo, não do que ele faz com a gente por fora, mas do que pode fazer com a gente por dentro. Trocaria minhas rusgas interiores por quantas rugas superficiais fossem necessárias.
Temo, temo que a força de meus desejos seja sucumbida pelo tempo. Temo ser mais fraco que minha curiosidade burra. Temo que minha racionalidade seja atropelada por uma passionalidade ainda mais burra que toda e qualquer burra curiosidade.
Preferia ainda temer o escuro, os fantasmas de minha infância. Hoje não mais os temo, hoje meus fantasmas não são mais lençóis brancos com furos nos olhos, são fantasmas internos, fantasmas que me assombram muito mais do que aqueles velhos lençóis.
Sinto-me sozinho, ausente de mim mesmo. Não compartilho nem da minha própria presença. Meu corpo está aqui, minha mente está longe, tentando pensar o melhor, tentando.
O clima de despedida somado ao clima de Natal não ajudam, não me trazem confiança, mas incredulidade. Sim, ser crédulo nunca me foi característica, mas seu oposto, agora, me absorve o pensar.
Queria poder correr para o tempo passar, queria fazer com que correndo o tempo voasse... Correria sem parar, sem pensar, somente correria.
Tenho medo do tempo, não do que ele faz com a gente por fora, mas do que pode fazer com a gente por dentro. Trocaria minhas rusgas interiores por quantas rugas superficiais fossem necessárias.
Temo, temo que a força de meus desejos seja sucumbida pelo tempo. Temo ser mais fraco que minha curiosidade burra. Temo que minha racionalidade seja atropelada por uma passionalidade ainda mais burra que toda e qualquer burra curiosidade.
Preferia ainda temer o escuro, os fantasmas de minha infância. Hoje não mais os temo, hoje meus fantasmas não são mais lençóis brancos com furos nos olhos, são fantasmas internos, fantasmas que me assombram muito mais do que aqueles velhos lençóis.
domingo, dezembro 24
ontem chorei sem chorar
Ontem chorei sem chorar. Choro mudo, calado, contido. Choro sem lágrimas, sem soluços. Choro que de tão doído se mantém incógnito, disfarçado, velado, camuflado, dissimulado em sorrisos amarelos, em piadas sem graça. Choro contraditório, incoerente... Choro sem começo, choro sem fim.
quinta-feira, dezembro 14
nem perfeito, nem latino-americano...
Devo dizer [antes que digam o contrário] que nunca fui um perfeito idiota latino-americano...
Nunca acreditei que nós, os latino-americanos, fomos, de alguma maneira, explorados, defraudados, enxovalhados ou oprimidos por nossos colonizadores, sejam eles, portugueses, espanhóis, franceses, ingleses ou até mesmo os pobres dos norte-americanos. Nunca achei que nossa miséria ou atraso econômico e social tivesse a menor relação com alguns séculos de exploração aos quais fomos submetidos. A culpa disso tudo é 100% nossa!
É de suma importância relatar aqui, que nunca acreditei nessa tal de mais-valia, muito menos nessa balela de exploração da classe trabalhadora, expropriação de sua força de trabalho, luta de classes. Tudo invenção daquele alemão barbudo e esquizofrênico [esse gordinho do “Max” me dá até vontade de rir, gordo xexelento].
Ah, também nunca gostei daqueles arquitetinhos frustrados que começaram com a história de que o desenho do arquiteto é responsável pela extração da mais-valia nos canteiros de obra. Que viagem! Esse tal de Rodrigo Lefèvre e seu outro amiguinho, o Sérgio Ferro, deviam é estar chapados de maconha quando mandaram essa, isso sim. Ao invés de serem empreendedores, correrem atrás de trabalho, arregaçarem as mangas, vêm com esse papo de doidão, de vincular inovação estética e prática política revolucionária. Deus do céu, quanta perda de tempo e de dinheiro.
E pra ser sincero, pra ser sincero mesmo, a gente precisava mesmo era de um Jorge Buchi, um cabra macho, um cabra hômi, pra invadir aquela terra de viciado em cocaína que é a Bolívia e recuperar o investimento da nossa Petrobrás... E quer saber de outra coisa, nossa Petrobrás é o caralho, tem mais é que privatizar aquela merda. Isso do Estado intervir na economia é coisa do tempo do meu avô, do tempo daquele negócio de “bem estar social”, coisa mais antiga, coisa velha, coisa retrógrada.
Os tempos são outros, e o futuro, o futuro é o liberalismo, a livre competição, a especulação financeira... Ganhar grana na Bolsa de Valores e ficar rico, milionário... Pra depois aproveitar, viajar, rodar por esse mundão de grandes oportunidades: um safarizinho na África, outro na Rocinha, uma expediçãozinha ao Iraque, umas orgias no Nordeste brasileiro, outras no Leste europeu, um cruzeiro no Caribe... Ah, vida boa, mundo justo!
Nunca acreditei que nós, os latino-americanos, fomos, de alguma maneira, explorados, defraudados, enxovalhados ou oprimidos por nossos colonizadores, sejam eles, portugueses, espanhóis, franceses, ingleses ou até mesmo os pobres dos norte-americanos. Nunca achei que nossa miséria ou atraso econômico e social tivesse a menor relação com alguns séculos de exploração aos quais fomos submetidos. A culpa disso tudo é 100% nossa!
É de suma importância relatar aqui, que nunca acreditei nessa tal de mais-valia, muito menos nessa balela de exploração da classe trabalhadora, expropriação de sua força de trabalho, luta de classes. Tudo invenção daquele alemão barbudo e esquizofrênico [esse gordinho do “Max” me dá até vontade de rir, gordo xexelento].
Ah, também nunca gostei daqueles arquitetinhos frustrados que começaram com a história de que o desenho do arquiteto é responsável pela extração da mais-valia nos canteiros de obra. Que viagem! Esse tal de Rodrigo Lefèvre e seu outro amiguinho, o Sérgio Ferro, deviam é estar chapados de maconha quando mandaram essa, isso sim. Ao invés de serem empreendedores, correrem atrás de trabalho, arregaçarem as mangas, vêm com esse papo de doidão, de vincular inovação estética e prática política revolucionária. Deus do céu, quanta perda de tempo e de dinheiro.
E pra ser sincero, pra ser sincero mesmo, a gente precisava mesmo era de um Jorge Buchi, um cabra macho, um cabra hômi, pra invadir aquela terra de viciado em cocaína que é a Bolívia e recuperar o investimento da nossa Petrobrás... E quer saber de outra coisa, nossa Petrobrás é o caralho, tem mais é que privatizar aquela merda. Isso do Estado intervir na economia é coisa do tempo do meu avô, do tempo daquele negócio de “bem estar social”, coisa mais antiga, coisa velha, coisa retrógrada.
Os tempos são outros, e o futuro, o futuro é o liberalismo, a livre competição, a especulação financeira... Ganhar grana na Bolsa de Valores e ficar rico, milionário... Pra depois aproveitar, viajar, rodar por esse mundão de grandes oportunidades: um safarizinho na África, outro na Rocinha, uma expediçãozinha ao Iraque, umas orgias no Nordeste brasileiro, outras no Leste europeu, um cruzeiro no Caribe... Ah, vida boa, mundo justo!
quinta-feira, dezembro 7
ao toque do sinal
Acordei torcendo que o sinal tocasse, que anunciasse os tão esperados trinta minutos de liberdade. Em disparada, percorreria os corredores do prédio novo até o velho campo de areia. Sob sol escaldante, correria sem parar atrás dela, por breves trinta minutos correria, defendendo – como se mais nada no mundo importasse – as variadas cores do meu time sem camisa. Ao soar do segundo sinal, saltando degraus, subiria as escadas em direção à sala de aula. Lá, tomaria de assalto a carteira de alguém, aquela estrategicamente situada debaixo do ventilador de teto, e, ainda que a professora de ciências voltasse, nela permaneceria... Sentado, exausto, ofegante, livre.
quinta-feira, novembro 30
dia de aniversário
Tem dia mais estranho que o dia do seu aniversário?
Quando era moleque sempre ficava tenso no dia do meu aniversário, ficava preocupado de não aparecer ninguém na festa, acho que até sonhava com isso... Eu, sozinho, com uma mesa toda enfeitada e uma caixa de presentes vazia... Olha que merda: passar o dia preocupado que a sua festa seja um fracasso e sua caixa de presentes termine cheia de espaço vazio. É muita tortura pra uma criança de 8 anos!
Mas pior que essa preocupação é quando você percebe que tem um monte de gente na sua festa [algumas pessoas você conhece, a maioria não faz idéia de quem seja] e todos cantarão o famoso “Parabéns pra você”... Batendo palmas, olhando fixamente pro seu corpo franzino e cabeçudo [que nesse momento está sobre um banquinho, com a sua mãe de um lado e seu pai do outro], todos sorrindo e cantando: “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...”. Cena inesquecível!
Mas no fundo no fundo, “Parabéns pra você” é pinto perto de “Derrama Senhor”. Existe no mundo música mais horrenda que “Derrama Senhor”? Impossível existir. O pior dessa música é que além das pessoas cantarem e baterem palmas – essa é a melhor parte – elas ABANAM as mãos em sua direção [sem contar que toda família tem um tio que vai além, aquele que na hora do “derrama”, enche um copo d´água, molha as mãos, e, gargalhando, despeja “perdigotos” na mesa, no bolo, em você, na sua avó, na vizinha, enfim, em todos]. Ah, e qual família também não tem uma “tia véia” que quando a música acaba ela emenda: “o Gabriel já FOI abençoado, lalalalalalala... O Senhor já DERRAMOU, o Senhor já DERRAMOU, lalalalalala...”. Antológica essa cena!
Desde moleque odeio “Derrama Senhor”, se não me engano, foi no meu aniversário de 7 anos que quase destruí a ornamentação de “faroeste” da mesa do bolo. Joguei areia, índio, oca, soldado, todo e qualquer tipo de objeto que pudesse machucar, ou quem sabe, até matar o meu tio [esse não era o tio dos “perdigotos”, era outro perfil de tio, daqueles que todo mundo também tem, do tipo que quando você tem 6, 7 anos, ele fica apertando seu pênis e perguntando: “Cadê o piru? Cadê o piru? Tem nada aí!”]. O “puto” do meu tio cantava o famoso “Derrama Senhor” a pleno pulmões. Cantava, abanava as mãos e ria da minha cara, o filho da p...
Mas voltando à pergunta inicial: Tem dia mais estranho que o dia do seu aniversário?
Na verdade têm 2 dias mais estranhos que o dia do seu aniversário:
1º - O dia anterior ao seu aniversário, aquele dia que a sua tia telefona pra te dar os parabéns [isso quando ela não liga no dia errado, mas no dia certo do MÊS errado!]. Isso consegue ser mais estranho que qualquer dia de aniversário!
2º - O dia que você percebe que não esqueceu de muitos de seus aniversários passados, principalmente daqueles em que você subiu num banquinho pra tirar foto atrás do bolo com seus pais, daquele em que cantaram “Derrama Senhor” e despejaram “perdigotos” na sua cabeça, daquele que você tentou matar o seu tio e até ganhou um “all-star” vermelho de cano longo de presente do seu padrinho. O estranho é perceber que você não esqueceu, e o mais estranho é perceber que ainda lembra de tudo aquilo com saudade e nostalgia!
Enfim, mais um dia estranho, mais um aniversário... “É BIG, É BIG, É BIG, É BIG, É BIG, É HORA, É HORA, É HORA, É HORA, É HORA, RÁ-TIM-BUM, GABRIEL, GABRIEL, GABRIEL!”
Quando era moleque sempre ficava tenso no dia do meu aniversário, ficava preocupado de não aparecer ninguém na festa, acho que até sonhava com isso... Eu, sozinho, com uma mesa toda enfeitada e uma caixa de presentes vazia... Olha que merda: passar o dia preocupado que a sua festa seja um fracasso e sua caixa de presentes termine cheia de espaço vazio. É muita tortura pra uma criança de 8 anos!
Mas pior que essa preocupação é quando você percebe que tem um monte de gente na sua festa [algumas pessoas você conhece, a maioria não faz idéia de quem seja] e todos cantarão o famoso “Parabéns pra você”... Batendo palmas, olhando fixamente pro seu corpo franzino e cabeçudo [que nesse momento está sobre um banquinho, com a sua mãe de um lado e seu pai do outro], todos sorrindo e cantando: “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...”. Cena inesquecível!
Mas no fundo no fundo, “Parabéns pra você” é pinto perto de “Derrama Senhor”. Existe no mundo música mais horrenda que “Derrama Senhor”? Impossível existir. O pior dessa música é que além das pessoas cantarem e baterem palmas – essa é a melhor parte – elas ABANAM as mãos em sua direção [sem contar que toda família tem um tio que vai além, aquele que na hora do “derrama”, enche um copo d´água, molha as mãos, e, gargalhando, despeja “perdigotos” na mesa, no bolo, em você, na sua avó, na vizinha, enfim, em todos]. Ah, e qual família também não tem uma “tia véia” que quando a música acaba ela emenda: “o Gabriel já FOI abençoado, lalalalalalala... O Senhor já DERRAMOU, o Senhor já DERRAMOU, lalalalalala...”. Antológica essa cena!
Desde moleque odeio “Derrama Senhor”, se não me engano, foi no meu aniversário de 7 anos que quase destruí a ornamentação de “faroeste” da mesa do bolo. Joguei areia, índio, oca, soldado, todo e qualquer tipo de objeto que pudesse machucar, ou quem sabe, até matar o meu tio [esse não era o tio dos “perdigotos”, era outro perfil de tio, daqueles que todo mundo também tem, do tipo que quando você tem 6, 7 anos, ele fica apertando seu pênis e perguntando: “Cadê o piru? Cadê o piru? Tem nada aí!”]. O “puto” do meu tio cantava o famoso “Derrama Senhor” a pleno pulmões. Cantava, abanava as mãos e ria da minha cara, o filho da p...
Mas voltando à pergunta inicial: Tem dia mais estranho que o dia do seu aniversário?
Na verdade têm 2 dias mais estranhos que o dia do seu aniversário:
1º - O dia anterior ao seu aniversário, aquele dia que a sua tia telefona pra te dar os parabéns [isso quando ela não liga no dia errado, mas no dia certo do MÊS errado!]. Isso consegue ser mais estranho que qualquer dia de aniversário!
2º - O dia que você percebe que não esqueceu de muitos de seus aniversários passados, principalmente daqueles em que você subiu num banquinho pra tirar foto atrás do bolo com seus pais, daquele em que cantaram “Derrama Senhor” e despejaram “perdigotos” na sua cabeça, daquele que você tentou matar o seu tio e até ganhou um “all-star” vermelho de cano longo de presente do seu padrinho. O estranho é perceber que você não esqueceu, e o mais estranho é perceber que ainda lembra de tudo aquilo com saudade e nostalgia!
Enfim, mais um dia estranho, mais um aniversário... “É BIG, É BIG, É BIG, É BIG, É BIG, É HORA, É HORA, É HORA, É HORA, É HORA, RÁ-TIM-BUM, GABRIEL, GABRIEL, GABRIEL!”
segunda-feira, novembro 27
tempo
Tempo, quem inventou esse merda? Certamente um capitalista filho da puta inventou a divisão do tempo que conhecemos: o tempo da produção e o tempo do lazer. 5 dias da semana para o trabalho e 2 dias para o ócio [na maioria dos casos, um ócio nada criativo].Foi assim: inventaram nosso calendário, com essa invenção criaram a idéia de tempo cíclico, com esse tempo cíclico estruturaram o tempo como algo linear, infinito. Tempo infinito... Infinito é o meu pênis (ops, mentira).
Essa noção cíclica do tempo é uma boa de uma sacanagem, 5 dias de trabalho para míseros 2 dias de descanso, de preguiça... 11 meses de labor, 11 meses sonhando com o tão esperado 1 mês de férias. A gente “sobrevive” por 11 meses sonhando viver 1 mês de prazer, de diversão, de alegria, e quem sabe, até um pouquinho de sacanagem... 11 meses de trabalho para 1 mês de descanso. E tem gente que acha que “5 contra 1” é covardia! Covardia, covardia é esse “11 contra 1”... É uma questão matemática, 1 mês de vida não pode compensar 11 meses de sobrevida!
Acreditem, assim como uma segunda-feira de trabalho perdida não é compensada pela próxima segunda, mas sim com um desconto no contra-cheque, o que deixamos de fazer no último sábado não poderemos compensar no sábado seguinte, aquele sábado já passou, já era, “zéfini”, morreu, foi perdido e muito provavelmente mal vivido por nós...
É assim em nosso “tempo”: quando se fala de trabalho, de produção, nos falam de um tempo absoluto, cíclico, mas quando se fala em lazer, em ócio, em preguiça, nos falam de um tempo relativo, de um tempo pseudo-cíclico. Querem nos convencer de que o tempo perdido de lazer é recuperável, e que o tempo perdido de produção é insubstituível... Tempos modernos...
É, vou dormir, um insubstituível sábado de lazer já passou, e uma irrecuperável, única e finita segunda-feira [de trabalho?] me espera!
segunda-feira, novembro 13
lilás
Das cores, até sei os nomes, mas muitas vezes não consigo diferenciá-las. Meu verde pode ser vermelho, marrom. Meu amarelo pode ser verde. Meu azul pode ser cinza, roxo. Mas uma coisa é certa, nada meu é lilás. Essa cor eu só conheço de nome.
Lilás, palavra escrota essa, lilás. Ainda bem que não sei o que é e o que não é lilás, para mim, nada é lilás... E certamente, nada muito interessante pode ser lilás, algo lilás só pode ser algo muito lilás.
Imaginem um time de futebol de uniforme lilás... Não se pode levar a sério um time de futebol de uniforme lilás, muito menos as pessoas que torcem por um time de futebol de uniforme lilás.
Dia de jogo, todos os torcedores vestidos de lilás indo para o estádio, colorindo ônibus, trens e ruas de lilás, colorindo toda a cidade com essa palavra escrota, lilás.
Lilás, palavra escrota essa, lilás. Ainda bem que não sei o que é e o que não é lilás, para mim, nada é lilás... E certamente, nada muito interessante pode ser lilás, algo lilás só pode ser algo muito lilás.
Imaginem um time de futebol de uniforme lilás... Não se pode levar a sério um time de futebol de uniforme lilás, muito menos as pessoas que torcem por um time de futebol de uniforme lilás.
Dia de jogo, todos os torcedores vestidos de lilás indo para o estádio, colorindo ônibus, trens e ruas de lilás, colorindo toda a cidade com essa palavra escrota, lilás.
Assinar:
Postagens (Atom)