quarta-feira, agosto 29

papo de maluco

-E aí, Mário, tá melhor?
-Bem melhor, cara, agora só dói quando eu respiro!
-Pô, que sorte a sua, vai poder mergulhar em apnéia sem problema!
-É verdade. Posso mergulhar em apnéia, brincar de prender a respiração na piscina, andar por aí com um pregador no nariz! E podem peidar do meu lado à vontade, não vou sentir nada!
- Mário... Você é mesmo um cara de sorte! Nem vou te desejar melhoras, que você continue assim: mergulhando, brincando, se disfarçando de varal e imune a gases mal cheirosos.
-Valeu, Carli... Uhnn!
-Que foi, Mário?
-Porra, conversando com você esqueci de prender a respiração. Doeu um pouco, mas já passou!
Devia ter peidado! - pensou Carlinhos.
-Pô, ouvi dizer que tem um cara que respira pela pálpebra, por que você não procura se informar sobre essa técnica?
-Pela pálpebra?
-É, pela pálpebra! Acho que é uma técnica oriental, esses “chinas” inventam cada merda...
-Pô, se é chinês deve ser de péssima qualidade, e ainda deve explorar trabalho infantil.
-Mário, isso é uma técnica de respiração, não é uma bosta de mini-game.
-É! Mas porra, como esse cara consegue respirar pela pálpebra?
-Sei lá, Mário, mas antes respirar pela pálpebra do que não respirar...
-Respirar eu até respiro, o problema é que dói, então evito... Uhnn!
-Que foi?
-Respirei de novo!

Carlinhos, com a mão amarela, sorriu!

segunda-feira, agosto 27

frio

Tudo era frio demais. Cama gelada, mobília cinza, paredes brancas. As lâmpadas de mercúrio no corredor conseguiam deixar tudo ainda mais insuportável. Aquele lugar era gélido. E ali, sozinha, ela só desejava a presença de alguém, de alguém que realmente se importasse. Alguém que lhe trouxesse um cobertor colorido e lhe ajeitasse melhor o travesseiro, que encostasse a porta do quarto e ao seu lado permanecesse por horas. Esse alguém não precisaria dizer nada, poderia ficar calado, imóvel. Sua simples presença já seria o suficiente pra transformar o mercúrio em vapor de sódio, pra pintar de laranja o branco descascado daquelas paredes frias, pra cobrir de vermelho o enfadonho cinza da velha mobília.

segunda-feira, agosto 20

ui! [você inventa]

por Tom Zé e Odair Cabeça de Poeta
Você inventa grite
Eu invento ai!
Você inventa chore
Eu invento ui!
Você inventa o luxo
Eu invento o lixo
Você inventa o amor
Eu invento a solidão
Você inventa grite
Eu invento ai!
Você inventa chore
Eu invento ui!
Você inventa o luxo
Eu invento o lixo
Você inventa o amor
Eu invento a solidão
Você inventa a lei
E eu invento a obediência
Você inventa Deus
E eu invento a fé
Você inventa o trabalho
E eu invento as mãos
Você inventa o peso
E eu invento as costas
Você inventa a outra vida
Eu invento a resignação
Você inventa o pecado
Eu fico aqui no inferno
Meu Deus,
no inferno
Valha-me Deus,
no inferno

terça-feira, agosto 7

tarde de segunda

Ligo a TV. Olho pra ela. Desligo a TV. Pego um cotonete na gaveta da estante da sala. Limpo o ouvido, não encontro nada. Fiz isso ontem, antes de ontem, nada encontrei. Vou na cozinha. Abro a geladeira. A garrafa de leite na porta tá quase vazia. Pego outra garrafa de leite no armário. Meio copo de requeijão com leite. 40 segundos no microondas. Leite quente. Pego a garrafa de café. "Merda! Acabou a bosta do café." Pó de café no armário da cozinha, porta superior do canto direito. Filtro de papel na porta superior do canto esquerdo. Panelas debaixo da pia. Água no fogo. O barulho do gás assusta. "Merda de fogão!" Alguns minutos e o café tá pronto. O leite esfriou. Mais 40 segundos no microondas. Agora sim, café com leite! Subo as escadas, sento a bunda na cadeira. Computador ligado, conectado com o mundo, infinitas possibilidades de navegação. Ligo o MSN, entre ausentes e ocupados, nomes estranhos, apelidos piores e inúmeras frases sem sentido, me mantenho incomunicável. Entro no Orkut, vejo meus recados, respondo alguns, apago tudo no final. Confiro meus fãs, parabenizo os aniversariantes e 'compartilho' da vida de meus amigos por mais de meia hora. Levanto da cadeira e saio do quarto. Me desconecto temporariamente do mundo de possibilidades que a internet oferece e que eu tão sabiamente desfrutei. Vou pra sala. Deito no sofá. Ligo a TV. Olho pra ela. Desligo a TV. Penso em estudar. Só penso. "Quero cagar! Preciso de um jornal. Cadê a merda do jornal?... Achei!" O Globo de domingo, 22 de julho. Hoje é 6 de agosto. "Foda-se. Vou ler a Revista da TV." Me informo sobre o que aconteceu na semana retrasada em todas as novelas da televisão brasileira. Leitura importante. "Nossa! A Luciana Gimenez levou nota zero." Nunca pensei que alguém se daria ao trabalho de avaliar a Luciana Gimenez. Sexualmente talvez, profissionalmente, nunca. "Caralho! Acabou o papel!" Vou até a despensa pelado. Pasta de amendoim se espalhando pela minha bunda. Pego um pacote de papel higiênico NEVE. 4 rolos num pacote. "Acho que dá e sobra!" Problema resolvido. Bunda limpinha. Volto pra sala, ligo a TV. "Será que começou o programa da Luciana Gimenez?" Lembro que tenho que estudar. Só lembro. Hoje é segunda-feira. "Cerveja seria uma boa... Porra! Tô sem grana." Desligo a TV. Vou pegar mais um café com leite que é de graça. Meio copo de requeijão com leite. 40 segundos no microondas, um pouco de café e... Pronto, café com leite! Rápido, quentinho e sem custos adicionais. Subo novamente a escada. Repito todo o processo anterior... Penso mais uma vez em estudar. Só penso. Sigo pro banheiro tranqüilo e confiante. 4 rolos de NEVE estão a minha espera. "Porra! Onde enfiei a merda do Caderno de Esportes?"

segunda-feira, agosto 6

ali, parado...

Era um frio na barriga, uma vontade de rir e de chorar, uma necessidade de correr e permanecer ali, parado, esperando... Nunca tremi tanto. Era como se tivesse consumido por uma inexplicável hipotermia em plena primavera carioca. Minha garganta engasgava, a saliva faltava. Foi complicado ficar quieto, meus pés balançavam sem parar. Como consegui dirigir até ali? Não importava, tudo já era passado. Confesso, em alguns momentos pensei que o tempo estivesse brincando comigo, me testando. Mas parado ali, depois de tudo, me senti como que a espera do primeiro beijo, ou a procura do meu nome na lista do vestibular. Uma mistura de excitação, medo, angústia, felicidade... Como alguém podia sentir tanta coisa ao mesmo tempo? Não sei. Só sei que ali, parado, esperando, me senti especial, me senti realmente especial. Não me senti assim por me entender importante pra alguém, mas por sentir em mim algo difícil de explicar, um amor, uma capacidade de amar, quase que imensuráveis. Naquele momento já tive certeza de que tudo tinha valido a pena, tudo mesmo. Meu corpo traduzia essa certeza. Estava anestesiado, drogado, contaminado por algo ainda não inventado, algo que me acelerava e me mantinha em câmera lenta, que não me deixava parado, mas ao mesmo tempo me impedia qualquer movimento. O mundo podia terminar ali, nada mais importava, nada podia ser maior, mais forte. Era como se minha respiração e meus batimentos pudessem ser sentidos pelos pés e levados até o pescoço de todos a minha volta. Senti ter certeza sobre tudo, resposta pra todas as perguntas, solução pra todos os problemas. Nada me faria sentir medo, nada seria impossível. O impossível não fazia mais sentido algum. Eu tava ali.

sexta-feira, agosto 3

história de vizinha

Saí andando sem um motivo, sem um porquê, apenas saí. Quem sabe não encontrava alguma coisa, quem sabe não encontrava alguém. Ou talvez, quem sabe, simplesmente me encontrava. Não tenho sido uma boa companhia pra mim. Minha presença em minha vida tem sido demasiadamente chata, como uma vizinha faladeira, hipocondríaca e aposentada, do tipo que liga pra sua casa numa noite de quarta-feira [na hora do futebol, pra ser mais exato aos 34 minutos do segundo tempo, quando seu time está ganhando a partida por 2 x 1 na casa do adversário, com um homem a menos] e pergunta se você tem uma xícara de açúcar pra emprestar. Quando você retruca com um curto, grosso e impaciente “NÃO”, ela simplesmente começa a imendar quinhentos novos assuntos; fala mal da moradora exibida do 502, fala da excursão que fará no feriado de 7 de setembro pra Paraty com um grupo de voluntários que conheceu no “Amigos da Escola”, conta as inúmeras peripécias do seu prodigioso neto de nove anos, o gorducho do Paulinho, e por fim, pergunta se pode ir até seu apartamento pegar a xícara de açúcar que, 10 minutos atrás, você disse não ter. Você respira fundo e... "Gol!" O narrador grita gol! E o gol não é do seu time... É nessa hora que você é consumido por uma vontade quase incontrolável de afogar a desgraçada, olhar no fundo dos olhos dela e gritar: “Não me interessa se o Paulinho lutou judô nas Olímpiadas dos colégios católicos, a senhora pode pegar a medalha de bronze do viadinho do seu neto, juntar com o elogio que a professora de inglês fez à pronúncia do pirralho e enfiar tudo bem no meio do olho do seu... do seu... do Seu Carlos!” Se já não bastasse aquela vizinha incoveniente, no meu caso particular, a gentil Dona Clotilde, ultimamente tenho sido a vizinha inconveniente de mim mesmo, a toda hora me lembrando o que não quero lembrar, me contando o que não quero saber, atrapalhando minha própria rotina com um monte de merda que quero esquecer... Mas enfim, a caminhada até que serviu de alguma coisa... Hoje é quarta-feira. Passei no mercado e comprei um quilo de açúcar de presente pra ela, a gentil Dona Clotilde!

quinta-feira, julho 5

notas de um velho safado

por Charles Bukowski

Sente-se, Stirkoff.
Obrigado, senhor.
Espiche as penas.
Muito gentil da sua parte, senhor.
Stirkoff, eu compreendo que você anda escrevendo artigos sobre a justiça, a igualdade; também sobre o direito à felicidade e à sobrevivência. Stirkoff?
Sim, senhor?
Você acha que existirá algum dia uma justiça soberana e sensível no mundo?
Na realidade não, senhor.
Então porque você escreve essa merda? Você não está se sentindo bem?
Eu venho me sentindo meio estranho ultimamente, senhor, quase como se estivesse ficando louco.
Você anda bebendo muito, Stirkoff?
É claro, senhor.
E você de masturba?
Constantemente, senhor.
Como?
Eu não compreendo, senhor?
Eu me refiro a como você faz a coisa.
Quatro ou cinco ovos crus e meio quilo de hambúrguer num vaso de flores de gargalo estreito ouvindo Vaughn Williams ou Darius Milhaud.
Vidro?
Não, bunda, senhor.
Eu me refiro ao vaso, é de vidro?
É claro que não, senhor.
Você alguma vez já foi casado?
Muitas vezes, senhor.
O que aconteceu de errado?
Tudo, senhor.
Qual foi a melhor trepada da sua vida?
Quatro ou cinco ovos crus e meio quilo de hambúrguer num...
Tudo bem, tudo bem!
Mas é verdade.
Você se dá conta que o seu desejo ardente de justiça e de um mundo melhor é apenas fachada para ocultar a decadência e a vergonha e o fracasso que residem dentro de você?
Hã hã.
Você teve um pai depravado?
Eu não sei, senhor.
O que você quer dizer com você não sabe?
Quero dizer que é difícil de comparar. O senhor vê, eu só tive um.
Tá tentando bancar o esperto comigo, Stirkoff?
Oh não, senhor; como o senhor disse, a justiça é impossível.
Seu pai batia em você?
Eles se revezavam.
Pensei que você tinha apenas um pai.
Todo homem tem. O que quero dizer é que minha mãe dava as dela.
Ela amava você?
Somente como uma extensão de si mesma.
O que mais pode ser o amor?
O senso comum de querer muito alguma coisa muito boa. Não se precisa estar relacionado por laços de sangue, pode ser uma bola de praia vermelha ou uma fatia de torrada com manteiga.
Você está querendo dizer que você pode AMAR uma torrada com manteiga?
Somente algumas, senhor. Em determinadas manhãs. Sob determinados raios de sol. O amor chega e vai embora sem avisar.
É possível amar um ser humano?
É claro, especialmente se você não os conhece muito bem. Eu gosto de olhar para eles através da minha janela, caminhando na rua.
Stirkoff, você é um covarde?
É claro, senhor.
Qual é a sua definição de covarde?
Um homem que pensaria duas vezes antes de lutar com um leão com as mãos nuas.
E qual é sua definição de um homem corajoso?
Um homem que não sabe o que é um leão.
Qualquer homem sabe o que é um leão.
Qualquer homem pensa que sabe.
E qual é a sua definição de um tolo?
Um homem que não se dá conta que o Tempo, a Estrutura e a Carne em sua maior parte se desgastam.
Então quem é que é sábio?
Não existe nenhum sábio, senhor.
Então não pode haver nenhum tolo. Se não existe noite não pode existir dia; se não existe branco não pode existir preto.
Sinto muito, senhor. Eu pensava que tudo era o que era, não dependendo de qualquer outra coisa.
Você andou metendo o seu pau em vasos de flores demais. Será que você não compreende que TUDO está certo, que nada pode andar errado?
Eu compreendo, senhor, o que acontece, acontece.
O que é que você diria se eu tivesse que mandar decapitá-lo?
Eu não seria capaz de dizer coisa alguma, senhor.
Eu quis dizer que seu eu quisesse mandar decapitar você eu permaneceria a Vontade e você se transformaria em Nada.
Eu me transformaria em outra coisa.
À minha ESCOLHA.
De acordo com ambas as nossas escolhas, senhor.
Relaxe! Relaxe! Espiche as pernas!
Muito gentil da sua parte, senhor.
Não, muito gentil de ambas as partes.
Naturalmente, senhor.
Você diz que freqüentemente sente essa loucura. O que é que você faz quando ela se apodera de você?
Escrevo poesia.
A poesia é loucura?
Não-poesia é loucura.
O que é loucura?
Loucura é feiúra.
O que é feio?
Para cada homem uma coisa diferente.
A feiúra é conveniente?
Ela está aí.
Ela é conveniente?
Eu não sei, senhor.
Você aspira ao conhecimento? O que é conhecimento?
Conhecer o mínimo possível.
Como é que pode ser isso?
Eu não sei, senhor.
Você pode construir uma ponte?
Não, senhor.
Você pode fabricar uma arma?
Não, senhor.
Estas coisas são produtos do conhecimento.
Estas coisas são pontes e armas.
Eu vou mandar decapitá-lo.
Obrigado, senhor.
Por quê?
O senhor é minha motivação quando eu tenho muito pouca.
Eu sou a justiça.
Talvez.
Eu sou o vencedor. Eu vou fazer que você seja torturado, eu vou fazer você gritar. Eu farei você desejar a morte.
Naturalmente, senhor.
Será que você não se dá conta que eu sou o seu senhor?
O senhor é o meu manipulador; mas não há nada que o senhor possa fazer a mim que não possa ser feito.
Você pensa que fala inteligentemente, mas com os seus gritos você não dirá nada inteligente.
Eu duvido, senhor.
Por falar nisso, como é que você pode escutar Vaughn Williams e Darius Milhaud? Nunca ouviu falar nos Beatles?
Oh, senhor, todo mundo já ouviu falar dos Beatles.
Você não gosta deles?
Eu não desgosto deles.
Você desgosta de algum cantor?
Cantores não podem ser desgostados.
Então, qualquer pessoa que tenta cantar?
Frank Sinatra.
Por quê?
Ele evoca uma sociedade doente para uma sociedade doente.
Você lê algum jornal?
Apenas um.
Qual?
OPEN CITY.
GUARDA! LEVE ESTE HOMEM PARA AS CÂMARAS DE TORTURA IMEDIATAMENTE E DÊEM INÍCIO AOS PROCEDIMENTOS!
Senhor, último pedido.
Sim.
Posso levar meu vaso de flores comigo?
Não, eu vou usar ele.
Senhor?
Quer dizer, eu vou confiscá-lo. Agora, guarda, leve esse idiota daqui!
E, guarda, volte com, volte com...
Sim, senhor?
Uma meia dúzia de ovos crus e alguns quilos de alcatra moída...
Saem o guarda e o prisioneiro, o rei inclina-se para a frente, sorri maliciosamente enquanto Vaughn Williams vai se insinuando pelo sistema de comunicação. Lá fora, o mundo movimenta-se para frente enquanto um cão infestado de pulga mija num lindo limoeiro vibrando sob o sol.

domingo, julho 1

saudades do Japão

Fala-se do aumento da conta de luz ao casamento do filho do Jorge, da gravidez precoce da prima do cunhado do Oswaldo a especulações sobre o preço do carro novo da vizinha, da formatura do filho de Ruth à feiúra da namorada do rapaz... Puta que pariu, cada vez mais menos pessoas conseguem me despertar algum tipo de curiosidade em ouvi-las. Sempre as mesmas histórias, os mesmos problemas cotidianos, os mesmos e poucos relatos de falsa felicidade. Chego a sentir saudades da minha vida em Atsugi. Não compreendia o idioma, não diferenciava um japonês do outro e só me alimentava de arroz e peixe cru. Uma vida saudável. Nenhuma gordura insaturada, nenhuma conversa fiada e nenhuma mulher ocidental por perto tentando destruir a minha vida. Incrível como dedicamos a maior parte de nossa existência insignificante a falar da insignificância alheia, ainda mais singular é a nossa capacidade em transformar - sem nenhum constrangimento - o ouvido dos outros em penico. Haja paciência pra ouvir tanta besteira, haja cotonete pra limpar tanta merda.

domingo, junho 24

dia-a-dia

Os dias parecem sempre o mesmo dia. Nada de novo, nada de velho, nada de nada. Nada na geladeira, nada na televisão, nada acontece. Vida vazia. Mente abarrotada, sufocada por velhas recordações e por uma vontade silenciosa – quase muda – de mudar alguma coisa. Por fora apatia, por dentro inquietação contínua - ininterrupta - como um mal de alzheimer... Que não deixa dormir, que insiste em acordar.

quinta-feira, maio 31

vícios e virtudes

Acordo às seis da tarde com a sensação de que dormi por uma semana. Puta que pariu, só consigo repetir mentalmente um sonoro puta que pariu. Mais um dia sem ver a luz do sol. Antes tivesse enchido a cara e acordado ainda bêbado com o quarto cheirando a álcool e as roupas espalhas pelo chão. Nem pra me embriagar tive coragem de enfrentar o frio que faz lá fora. Vento frio de um Rio de Janeiro frio em pleno aquecimento global. Aquecimento global fodido... Não aquece a cidade muito menos a vida de um pobre e sedentário notívago tentando mudar sua rotina de internet, coca-cola, café e punheta. Esse frio tem me tirado até a fome, impossível me motivar a mudar de vida. Parar de beber, acordar cedo, dar aquela corrida matinal, obviamente precedida de um alongamento, e inebriado por minhas próprias virtudes, respirar o incomparável perfume da manhã... Que merda! Um abstêmio que acorda cedo, se alonga antes de correr, e cheio de si, respira profundamente o ar da alvorada. Como poderia confiar em mim mesmo? Alguém assim só poderia ser um mentiroso, um tipo cínico de terno de grife, dono de um carro preto importado, uma pasta de couro de jacaré e de uma sala em um belo edifício comercial patrimônio de uma grande multinacional do petróleo. Certamente eu faria contribuições mensais para os órfãos de alguma guerra civil na África, coincidentemente, continente mais explorado pela empresa dona do prédio bonito em que eu tenho uma vaga para o meu carro preto e uma sala com uma grande mesa onde coloco pra descansar diariamente meu pequeno jacaré taxidermizado. Acho que confiaria mais em mim chegando em casa pela manhã, bêbado, trocando as pernas e prendendo a respiração, certo de que se repirasse fundo, vomitaria. Talvez vomitasse pela ânsia provocada pelo cheiro inconfundível da hipocrisia matutina, ou simplesmente pela quantidade de cerveja barata ingerida na tentativa de esquecer minha carência de virtudes e abundância de vícios. Também poderia vomitar por não ter um terno, não ter um carro, ou por compaixão aqueles pobres jacarés transformados em pastas de gosto duvidoso. Talvez vomitasse meus próprios vícios e virtudes na tentativa de distingui-los em meio a cerveja, a bile e aos amendoins. Ou, como um simples mortal, vomitasse na tentativa inócua de amenizar uma puta ressaca a caminho. É... Melhor voltar pra internet...

terça-feira, maio 22

quero ser feliz

Quero constituir família: mulher, filhos, casa, jardim
Quero uma secretária gostosa, que faça de tudo por mim

Quero trabalho, lazer, quero uma vida normal
Com muito sexo, orgia, tudo bem convencional

Quero liberdade de escolha, liberdade de expressão
Quero, em liberdade, responder meus processos por fraude, sonegação

Quero aparecer na TV, comer uma gostosa do BBB
E em minhas férias na França, fazer um curso de Sommelier

Quero todo ano pular carnaval em Salvador
E sem cerimônia, dar 3 mil reais no abadá do Armandinho, Osmar e Dodô

Em revistas, quero meu dia-a-dia exposto
Quero financiar projeto cultural pra pobre, e assim pagar menos imposto

Quero me filiar ao PSDB, com móveis de assinatura, mobiliar o meu AP
E fumar diariamente ervas aromáticas no meu narguile

Na base da propina, quero ganhar licitação
Construir belas e superfaturadas pontes, lá no sul do Maranhão

No Rio, quero fundar uma ONG, fazer projeto social
E encher meu cu de dinheiro, com apoio de uma multinacional

p.s. Texto gentilmente cedido para os Skrotes Boys of the Catland

segunda-feira, maio 14

bicicleta

De Castigo. Sentado. No canto da sala. A bicicleta roubada. Tento vídeo-game, bola, totó, ping-pong. Qualquer coisa pro tempo passar. Tento. Mas me levaram o brinquedo preferido. Me tiraram a vontade de brincar. Na rua, com amigos, brinco, mas pelo simples dever de brincar. Brinco. Mas brinco pensando nela. Brinco até ela voltar.

quinta-feira, maio 10

cenas do rio de janeiro - nº 1

Manhã de quinta-feira. Avenida Rio Branco. Entre o corre-corre de gravatas, guarda-chuvas e entregadores de papel, dois guardas municipais parecem conversar.

- Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. Ele vibra! Ele é fibra! Muita libra! Já pesou? Flamengo até morrrrrrrer eu sou. - cantava entusiasmadamente o primeiro guarda.
Silêncio.
- Hahahahahahahahaha! - gargalhou ironicamente o primeiro guarda.
O segundo guarda permanecia calado.

Noite de quarta-feira. Maracanã. 57 mil torcedores. Flamengo 2 x 0 Defensor. Flamengo eliminado da Copa Libertadores da América pela soma de resultados.

terça-feira, maio 8

42 - Circular - Via São Lourenço

Todas as segundas e quintas a mesma coisa, aulas de inglês. Só tinha 11 anos e tinha que ir às aulas de inglês. Duas vezes por semana. Uma hora e meia de aula. Mas pra quê? Por que perder tempo aprendendo aquela merda de língua? Não conhecia nenhum inglês, mal sabia onde ficava a Inglaterra, nunca tinha ouvido nada do Ramones, muito menos enchido a cara de Guinness.

Meu pai dizia que era importante. No início acreditei nele. No início. Os indiozinhos me fizeram mudar de opinião. O que poderia ser mais idiota que decorar uma música sobre indiozinhos? Lembro da minha primeira professora de inglês: cabelo loiro, pele morena de sol, olhos verdes e óculos azuis. Ela cantava a música dos indiozinhos. Eu boquiaberto olhava pra ela. A turma “Step One” seguia cantando...


“One little, two little, three little Indians
Four little, five little, six little Indians
Seven little, eight little, nine little Indians
Ten little Indian boys.

Ten little, nine little, eight little Indians
Seven little, six little, five little Indians
Four little, three little, two little Indians
One little Indian boy.”

Será que mais ninguém questionava a imbecilidade daquela música? Provavelmente todos ficaram satisfeitos com a explicação paterna.

- Estudar inglês é importante pro seu futuro, meu filho.

Se naquela época meu pai dissesse que em um futuro próximo eu poderia conhecer garotas loiras, de pele morena, olhos verdes e óculos azuis, e que essas garotas poderiam somente entender a língua de Oscar Wilde, e que, provavelmente, só conseguiria fodê-las se estudasse inglês desde a 5ª série, teria matado menos aulas dando voltas no “42 - Circular - Via São Lourenço”.

quinta-feira, maio 3

fingi na hora rir

Hoje eu quis brincar de ter ciúme de você
Mas sem por que meu coração me avisou que não
Fingi na hora rir
Talvez por aqui estar tão longe de você pra te dizer

Aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão?
Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração
Ou anda sozinha, me esperando pra dizer coisas de amor

Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor

Quantas horas mais vão me bater até você chegar?
Aqui meu lar deixou de ser aquilo que um dia eu construí
E eu fico sozinho, esperando pra trazer você para mim

Sofro por saber que não sou eu quem vai te convencer
Que cada dia a mais é um a menos pro encontro acontecer
E eu fico sozinho, esperando por você, meu bem-querer

Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais por que
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor

Los Hermanos – Marcelo Camelo

"A banda Los Hermanos comunica a decisão de entrar em recesso por tempo indeterminado. Por conta disso não há previsão de lançamento de um novo disco."

Que o "tempo" não seja definitivo...

segunda-feira, abril 23

ditado

Abaixo, segue um texto ditado pela professora aos alunos de uma turma da 5ª série do 1º grau, em uma escola estadual, no município de Niterói – RJ.

Suas qualidades

“Algumas boas qualidades você já descobriu que existem dentro de você. Pode ser um bom atleta, alguém chegado às artes, uma pessoa que gosta de ajudar os outros. Ou, talvez, o humor seja o seu forte e você diverte as pessoas, brincando e contando piadas. Ou ainda você pode ser um cidadão com espírito de liderança, preocupado com os problemas de sua escola, de sua cidade e até de seu país.
Enfim, você sabe muito bem quais são suas qualidades. Pense nelas e fale daquilo que é o seu forte.
”

O texto acima, ditado pela professora, deveria ser escrito pelos alunos em uma folha de caderno, o que permitiria a avaliação de suas capacidades de ouvir, assimilar e passar o que ouviram para o papel, ou seja, uma avaliação do nível de compreensão e domínio da língua portuguesa. Segue abaixo, a transcrição do texto supracitado por um dos alunos da turma.

Sua quelidade

“Auguas boas quelidades você vadis culeou que e zida derodereortê. Podarcê um bou atrata, anha xagado as arte, um pesoa que gorta de aguda as otras. O, teureo, una jega aseu e reage digada as pessa, e cater diada. O aida você podice um cidadão com espirato da lidaresa, preucoda com prabiana de sua escola, de sua cidade a tecia ateis.
Ífim, você salca muitobea que são suas quelidade. Pecinalas e falas da quelo que eufuta
.”

O aluno responsável pelas desconexas palavras acima concluiu o primário em uma escola municipal de Niterói. O município de Niterói tem como política educacional a não reprovação de seus alunos, ou seja, todo aluno, capacitado ou não, deve avançar paras as séries seguintes, mesmo não apresentando condições mínimas para acompanhar os ensinamentos que lhes serão apresentados futuramente.

Esta é a política educacional de um dos municípios mais ricos de um dos estados mais ricos do país. Política de um governo do Partido dos Trabalhadores. Política do governo de um Prefeito-Professor. Política de um governo que se diz comprometido com a questão social. Uma política que gera saldos “positivos” de aprovação, mas que esconde um saldo negativo e irreparável na educação de alguns de seus alunos, que terminam o primário praticamente analfabetos.

segunda-feira, abril 16

ridículo e só

Só conseguia me sentir um idiota. Minha vontade era ficar o tempo todo debaixo da mesa do bolo, ou quem sabe escondido na caixa dos presentes. Me sentia o mais idiota entre todos os garotos idiotas da 4ª série. Por que eu não podia usar roupas normais? Um tênis normal, uma calça jeans normal, uma camisa colorida qualquer com alguma frase estúpida em inglês? Toda festa de aniversário era uma espécie de Segunda, Terceira, Quarta Comunhão. Ela separava meu cinto e meus sapatos brancos de verniz, minhas meias finas e brancas que iam até os joelhos, minha bermuda branca de pregas e minha camisa branca cheia de botões.

Antes aquela fosse minha Primeira Comunhão e não a festa de aniversário de um colega de escola. A julgar pela minha aparência, estaria no lugar certo, onde poderia expiar, reservadamente em um confessionário, meus primeiros pecados.

- Me perdoe, padre, pois eu pequei.
- Qual seu pecado, meu filho?
- Desejei arremessar pela janela do meu quarto toda essa roupa ridícula e branca que estou vestindo, e junto à roupa, padre, também desejei arremessar a minha mãe.

A parte ruim seria a quantidade infinita de Ave Maria e Pai Nosso que viriam depois, mas nada comparável ao castigo de estar em uma festa fantasiado de “Gasparzinho Envernizado” enquanto todos seus amigos ostentam tênis novos, calças jeans e camisas coloridas. Talvez eu fosse o único aluno do colégio a agradecer secretamente pela existência do uniforme escolar obrigatório: tênis de couro preto, meia preta, bermuda jeans e camisa verde. Era bom chegar ao colégio e estar vestido como todo mundo. A idéia de que todas as festas de aniversário também pudessem ter uniformes obrigatórios me empolgava. Se os garçons tinham uniformes obrigatórios, por que não os convidados? Intimamente, invejava os garçons. Podiam parecer ridículos com aqueles paletós brancos e suas gravatas pretas de borboleta, mas não estavam sós. Nas festas, eu era sempre o único de sapatos brancos de verniz. Ridículo e só.

quarta-feira, março 28

era uma vez uma arte...

Das ruas para as vitrines – Grifes, arquitetos e galerias de arte rendem-se ao boom do grafite http://veja.abril.com.br/vejarj/100506/capa.html

“A bonequinha de traços orientais e cabelo esvoaçante espalhou-se de muro em muro. Hoje, é um FENÔMENO de MARKETING. Criada pelo grafiteiro Tomaz Viana, o ‘Toz’, 30 anos, a boneca Niña já decora apartamentos à beira-mar, ilustra camisetas e virou obra de arte à venda na Galeria Haus Contemporânea.”

“Nos últimos anos, o grafite carioca vem extrapolando os limites dos muros, ganhou STATUS e tornou-se OBJETO de CONSUMO de adolescentes e jovens.”

“Na mostra Artefacto do ano passado, o arquiteto Geraldo Lamego projetou um home theater em que se destacava uma parede coberta pelo grafite abstrato de Ismael Vagner de Lima, 26 anos, o ‘Smael’.”

“No circuito das artes plásticas, telas de grafiteiros cariocas chegam a VALER 10.000 REAIS.”

“Um de seus painéis foi escolhido para enfeitar o muro da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Já pintou várias vitrines e fez cenário para a estilista Isabela Capeto. Os vestidos de Adriana Barra, para quem (Mateu) criou estampas em parceria com a artista Renata Americano, chegam a CUSTAR QUASE 2.500 REAIS.”

Era uma vez uma arte...

Arte de rua, arte de protesto, de contestação!
Arte “rotulada” de vandalismo, pirraça juvenil, rebeldia sem causa!
Arte marginal, libertária, transformadora, revolucionária... Arte!

Hoje, o que era underground enfeita parede de sala de estar de madame, é cenário de “Open House” regado a prosecco e pastrami... O que era contracultura agora é estampa de vestido de 2500 reais, de bermuda de 130 e guarda-chuva de 350, é mural de quarto de criança rica, é objeto de consumo das massas, é cult, é moda...

Já dizia o Malvadinho: “Comprar artistas, o esporte predileto dos engolidores de mundo.” www.malvados.com.br

sábado, março 24

papo de irmão

Ei, e aí?
E aí o quê?
Tá recuperado?
Recuperado?! Recuperado de quê?
Já esqueceu, idiota?
Ah, tô melhor... Mas sabe como é?!
Não, não sei...
Ihhh... Se não sabe também, foda-se.
Porra! Que mau humor, hein!
Mau humor é o caralho, fica enchendo a porra do saco com pergunta idiota.
Beleza, não pergunto mais. Você que se foda sozinho.
Ihhhh, vai pra puta que pariu, vai. Sai daqui...
(silêncio) Tchau, viadinho...
Tchau é o caralho!

domingo, março 18

cada vez melhor

Cada vez melhor, a cada dia melhores e novas notícias. A esperança cresce, a fé se restabelece. A força da gravidade já não se faz sentir em nossos ombros como antigamente...

O salário mínimo deverá subir de R$ 350 para R$ 380. A Revista O Globo de domingo e a sua seção Achados Imperdíveis trazem cada vez mais achados imperdíveis e indispensáveis para nós, meros mortais: “Abotoaduras de prata de lei – R$ 983 na Montblanc”, “Tábua de madeira da Tutto per la Casa – R$ 198”, “Cintos da Patachou à venda na Vila das Flores – R$ 185”, “Carteira da Kostuum ­– R$ 280”.

Realmente está tudo melhor, mas, infelizmente, nem tudo são flores ou abotoaduras de prata de lei da Montblanc: a poluição atmosférica e a destruição da camada de ozônio ainda tiram o sono do brasileiro comum...

Porém, com esse salto triplo twist carpado de R$ 30 no salário mínimo nacional, um trabalhador, que em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social venha a ter a remuneração especificada em R$ 380 poderá comprar um Sundown 50 nos Supermercados Pão de Açúcar pela bagatela de R$ 30,35, sem comprometer seu orçamento mensal. E, ao economizar por mês o equivalente a R$ 349,65* desse mesmo orçamento, conseguirá realizar o sonho do automóvel zero quilômetro próprio e bi-combustível em menos de 6 anos.

Realmente, está tudo melhor, cada vez melhor!

*R$ 380 – R$ 30,35 do Sundown 50 = R$ 349,65.