segunda-feira, abril 28

o mais importante é o mais oculto

Tem tempo que eu não escrevo nada que preste aqui [como se alguma vez tivesse escrito algo que prestasse], mas é aquilo, falta de tempo, muito trabalho e muito dinheiro no bolso... Resultado? Quando não estou trabalhando estou gastando com bebidas, drogas e mulheres! Mas é aquilo, sempre acontece algo de novo para me tirar dessa difícil rotina!

Ultimamente tenho dedicado grande parte do meu tempo a garimpar notícias sobre educação, economia, política e saúde pela internet, infelizmente, as dificuldades encontradas são enormes. Os meios de comunicação, 100% dedicados ao caso Isabella Nardoni, esqueceram do flamengo [a letra minúscula é proposital], da dança do créu, da mulher melancia, e por mais incrível que possa parecer, esqueceram até do mosquito da dengue! Imaginem se alguém se lembraria de fazer uma matéria sobre o cancelamento do aumento das bolsas de mestrado e doutorado, aumento esse anunciado pelo governo e revogado em virtude da não-aprovação da CPMF! Imaginem! Claro que não lembrariam! Nossos jornalistas têm tarefas mais importantes a fazer, como...

Entrevistar psiquiatras que traçaram o perfil psicológico do “adevogado” e desconhecedor da gramática da língua portuguesa [mais precisamente do capítulo que trata da concordância verbal], o Dr. Alexandre Nardoni, assim como... Entrevistar velhinhas insanas que viajaram 400 quilômetros para juntamente com um exército de jornalistas e cidadãos desocupados fazer guarda, em turnos coletivos de 24 horas, em frente ao 9º Distrito Policial do Carandiru, como se esperassem do delegado, devoto de São Cosme e São Damião, a distribuição de centenas de doces em saquinhos!

Como diria um velho amigo meu: “O espetáculo organiza com habilidade a ignorância do que acontece e, logo a seguir, o esquecimento do que, apesar de tudo, conseguiu ser conhecido. O mais importante é o mais oculto."

p.s. Como eu queria morar ao lado do 9º Distrito Policial do Carandiru, só pra ter o prazer de arremessar ovo podre e porrolho [aquela maçaroca de papel higiênico molhado] em toda essa gente de curiosidade mórbida. A parte ruim seria morar em São Paulo, e relativamente perto da Lívia Maria.

quinta-feira, abril 3

imposturas intelectuais

O Orkut não é só cultura inútil e canal cibernético de invasão e contemplação da intimidade alheia, às vezes nos apresenta algo de interessante. A última pérola foi a comunidade Imposturas Intelectuais, homenagem ao livro homônimo dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont.

Impossível não ter a curiosidade despertada pela descrição da comunidade! Ainda não adquiri o livro, mas recomendo, deve ser no mínimo engraçado!

Descrição da comunidade:

"Se você não compreende de jeito nenhum textos como:


Podemos ver claramente que não há nenhuma correspondência biunívoca entre relações significantes lineares ou de arquiestrutura, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multirreferencial e multidimensional.

Não se preocupe nem se ache um imbecil. Ninguém entende, embora alguns façam de conta. Citações como esta, do psicanalista Félix Guattari, que são nada mais que um amontoado de palavras rebuscadas, cheio de jargões científicos, pseudocientíficos e filosóficos, foram desmontadas, e seus autores desmascarados pelos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont em seu livro Imposturas Intelectuais."

Agora que me inspirei em Guattari, deixa eu voltar pra minha Dissertação de Mestrado!

terça-feira, março 11

apologia à preguiça

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”

Lessing

"Contemplai o crescimento dos lírios dos campos, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho."

Jesus cristo

“Os filósofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos deuses.”

Paul Lafargue

“É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriaguez sem cessar.
Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contando que vos embriaguez.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão de vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhe que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.”

Baudelaire

Embriagai-vos... Porque trabalhar dá muito trabalho!

quarta-feira, março 5

planos de um novo rico

Essa rotina de escassez monetária e, conseqüentemente, precária diversão, fez com que eu topasse o desafio de encarar um concurso público, logicamente, com o único intuito de enriquecer licitamente por meio de pouco ou quase nenhum esforço. O concurso é para o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, cargo de Analista de Infra-Estrutura na área de transporte rodoviário e urbano, ou seja, serei uma espécie de semáforo-humano com salário inicial de R$ 5.406,44. Disse que serei pois estou convicto de minha aprovação, e diante te tamanha convicção comecei a pensar em formas de gastar meu futuro salário, na verdade, minha futura pequena fortuna, pois para a triste realidade de um arquiteto e urbanista recém formado, essa remuneração é exorbitante!

Após algumas horas de reflexão concluí que meu primeiro gasto será com o aluguel de um carro de bombeiro, desfilarei pela cidade comemorando minha vitória, nada mais justo após ter assinado um certificado de vencedor e cidadão padrão aos olhos de nossa sociedade. Em seguida comprarei um neto para a minha mãe. Ela quer um neto, eu não quero ter um filho [se ainda precisasse de ajuda para arar um pedaço de terra, plantar mandioca ou tocar um rebanho de ovelhas, lhe daria uns 13 netos], mas agora que sou rico, é só comprar um, ou quem sabe dois.

Jogarei todas as minhas roupas fora, principalmente as camisas de Encontros de Arquitetura, a partir de agora, só usarei roupas de estilistas famosos. Também não mais andarei em companhia de amigos pobres, ou seja, todos os amigos que tenho, mas também não ficarei “órfão”, alugarei ou comprarei alguns novos. Por fim, bancarei a gravação do 1º CD dos Skrotes Boys of the Catland [banda formada por parte dos já citados amigos pobres], tenho certeza que assim perceberão vossa total falta de talento musical, me poupando de futuros convites para seus ensaios bizarros e suas sazonais apresentações em festinhas com não mais que 23 convidados...

É... Tão bom fazer planos de gastos futuros!

terça-feira, março 4

sobre pessoas e bukowski

Estava lendo um texto do Bukowski onde ele fala de pessoas que passam pela vida com pouca angústia, pessoas que dormem bem, que são contentes com a família, pessoas imperturbáveis, e que ao morrerem, têm uma morte serena, normalmente durante o sono. Ele insiste que pessoas assim existem. Declara não ser uma delas, que está longe de ser uma delas, mas que elas estão lá, e ele está aqui.

Eventualmente invejo pessoas assim... Dormir oito horas por dia, acordar disposto, perceber uma mulher feliz e carinhosa no outro lado da cama, quem sabe até “dar uma” antes do trabalho. Café da manhã com as crianças, deixá-las no colégio, seguir pro escritório. Reuniões, cafezinhos, almoço em um bom restaurante, gráficos, planilhas, voltar pra casa. Banho quente, jantar em família, novela das oito. Total serenidade até as próximas horas de um sono profundo, onde tudo recomeça, e só termina com a chegada de uma morte tranqüila, em um dia qualquer, provavelmente durante um sonho.

Constantemente invejo o Bukowski... Vagabundo imprestável, proletário e bêbado. Vida familiar invariavelmente conturbada. Apaixonado por corridas de cavalos, mulheres e música clássica. Largou a faculdade de jornalismo e freqüentou todos os piores empregos que pôde. Entre um porre e outro escreveu romances, contos e poesias. Sem pudores e de forma crua escreveu histórias profundas, sobre pessoas e temas só aparentemente banais. Foi um homem angustiado, solitário, dono de uma sensibilidade peculiar. Morreu de leucemia, mas podia ter sido de cirrose hepática. Em seu túmulo, pediu que escrevessem: Don´t Try.

quinta-feira, fevereiro 28

quinta-feira, fevereiro 21

sobre perdas

Não faz muito tempo ouvi minha mãe dizer que já fui uma pessoa menos amarga. Escutei palavras parecidas de alguns amigos próximos que leram meus textos. Mas só me sinto mais velho, mais crítico. E menos crédulo, menos inocente. É difícil não perder a inocência quando se percebe que perdas são inevitáveis. Aprendi cedo a lidar com certo tipo de perda, aprendi cedo a lidar com a morte. Hoje até consigo enxergar beleza na morte, e lido melhor com ela do que com certas perdas do dia-a-dia: as amizades que se perdem pela distância, os amores eternos que não resistem ao tempo e as diferenças, a esperança de mudar o mundo que se transforma no simples desejo de comprá-lo... A morte não, ela é inexorável, natural, e sim, dona de uma beleza peculiar, existe candura na dor de quem perde alguém pra morte, já as pequenas perdas, essas são desprovidas de beleza, e suas dores são dores impregnadas de amargura.

quarta-feira, fevereiro 20

amenidades da vida cotidiana

Tava aqui tentando ocupar meus pensamentos com qualquer coisa desimportante. Ultimamente tenho dedicado grande parte do meu tempo ocioso a refletir sobre inutilidades: futebol, carnaval, poesia, dissertação de mestrado, trabalho, etc. Acho que deveria dedicar mais tempo aos meus filhos. Eu não tenho filhos, mas se tivesse dedicaria mais tempo a eles!

Será que as pessoas têm filhos justamente pra terem algo importante a que se dedicarem? Nunca olhei por essa óptica, mas ter filhos é uma saída interessante pra dar significado a uma existência, digamos... pouco interessante.

Quem tem filho não tem tempo de dormir, muito menos de pensar amenidades. Quem tem filho trabalha, limpa bunda suja de cocô e faz mamadeira. Depois leva pra escola, trabalha ainda mais pra pagar a escola e tenta convencer o moleque de que ele deve torcer pro mesmo time que você. Quem tem filho não tem carnaval e nem lê poesia, somente livro infantil e bula de remédio pra cólica. Quem tem filho não escreve dissertação de mestrado e nem tem tempo de reclamar do trabalho. Enfim, quem tem filho não tem tempo de pensar o quanto sua existência é, digamos... pouco interessante.

Será que eu deveria ter filhos?

sexta-feira, fevereiro 15

profundas divagações odontológicas

Não consigo dormir. Minha internet está fora do ar e uma dor de dente me atormenta. Tô aqui, escrevendo rápido, sem pensar, tentando esquecer a desgraçada da dor. Tá difícil. Juro que se essa dor passasse eu ficava uma semana sem entrar na internet e nunca mais acessava o Orkut, melhor, eu apagava o meu perfil do Orkut, melhor ainda, eu assassinava o filho da puta que inventou o Orkut. Porra, se essa dor de dente passasse agora eu arrumava um trabalho fixo e doava mensalmente 10% do meu salário pra Igreja Renascer em Cristo!

Acho que vou beber cachaça, álcool ameniza dor de dente, não cura, mas ameniza... Só tem cerveja escura. Uma garrafa de cachaça ameniza uma dor de dente, mas duas long neck de cerveja escura não amenizam nem dor de corno. E é certo que não trocaria minha dor de dente por uma dor de corno, talvez por uma dor de cabeça, de coluna, mas não por uma dor de corno. A idéia da dor de dente já nem me parece tão ruim, é só uma dor de dente! Uma obturação dá jeito, na pior das hipóteses um canal, uma extração. Perto de uma dor de corno é moleza!

terça-feira, fevereiro 12

nova babilônia

por Constant Nieuwenhuis

Aquarela de Constant, publicada na edição original de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord.
Nenhum motivo em especial para postá-la, simplesmente gosto dessa imagem!

domingo, fevereiro 10

carnaval

Ruas diariamente ocupadas por pedestres apressados e fisionomias preocupadas são tomadas por um estado de embriaguez coletiva...

Os poucos carros que transitam livremente desfilam com suas rodas de rolimã, caixas de isopor, guarda-sóis coloridos e placas dizendo: DOIS LATÕES POR CINCO!

Pequenos super-heróis, odaliscas e bruxas sobem e descem as ladeiras de Santa Teresa de mãos dadas com suas mães!

Jack Sparrow retira dinheiro em um caixa eletrônico do Banco do Brasil, o Super-Homem espera na fila sem se importar com a ousadia do pirata!

Pessoas cantam e sorriem nos ônibus, se beijam e se abraçam nas esquinas, ocupam a cidade, se apropriam do que lhes pertence por direito!

O carnaval é assim, uma espécie de mensagem subliminar de esperança dentro de um filme repleto de momentos tristes... Tenta por quatro dias nos convencer de que esse estado de embriaguez coletiva não precisa ter fim!

quinta-feira, janeiro 24

terrorismo poético

por Hakim Bey

DANÇAR BIZARRAMENTE A NOITE INTEIRA em caixas eletrônicos de bancos. Apresentações pirotécnicas não autorizadas. Land-art*, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alienígenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-terroristas. Seqüestre alguém e o faça feliz. Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna – digamos, cinco mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia. Mais tarde, essa pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existência.

Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível etc.

Fique nu para simbolizar algo.

Organize uma greve na escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência e beleza espiritual.

A arte do grafite emprestou alguma graça aos horríveis vagões de metrô e sóbrios monumentos públicos - a arte – Terrorismo Poético (TP) também pode ser criada para lugares públicos: poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal), transmissões de rádio pirata, cimento fresco...

A reação do público ou o choque-estético produzido pelo TP tem que ser uma emoção pelo menos tão forte quanto o terror - profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia dadaísta - não importa se o TP é dirigido a apenas uma pessoa ou várias pessoas, se é "assinado" ou anônimo: se não mudar a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.

O TP é um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem ingressos ou paredes. Para que funcione, o TP deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia). Mesmo as táticas de guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez tenham agora se tornado muito conhecidas e previsíveis.

Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um ato consciente por uma vida deliberadamente mais bela - deve ser o TP definitivo. O Terrorista Poético comporta-se como um trapaceiro barato cuja meta não é dinheiro, mas MUDANÇA.

Não faça TP para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite a política, não fique por perto para discutir, não seja sentimental; seja impiedoso, corra riscos, vandalize apenas o que precisa ser desfigurado, faça algo que as crianças lembrarão pelo resto da vida — mas só seja espontâneo quando a Musa do TP o tenha possuído.

Fantasie-se. Deixe um nome falso. Seja lendário. O melhor TP é contra a lei, mas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.

* Tipo de arte que usa a paisagem, normalmente natural, como objeto artístico, sendo a própria natureza (e seus fenômenos, chuva, vnto, etc.) elementos constitutivos da obra.

terça-feira, janeiro 22

profundas divagações cinematográficas

Assisto ao filme do Cartola e descubro que ele morreu no dia do meu aniversário. Um monte de gente boa e de existência atormentada morreu no dia do meu aniversário: Cartola, Oscar Wilde, Fernando Pessoa, Guy Debord... Grandes merdas, um monte de gente boa e de existência atormentada morre no dia do aniversário de um monte de gente todo santo dia!

Colocar legenda em filmes é algo muito complexo ou eu que sou um idiota? Baixo um monte de porcaria na internet e não consigo colocar a merda da legenda. Os únicos filmes em inglês e sem legenda que eu entendo sem dificuldades aparecem no e-mule com títulos longos e diálogos curtos: Lesbian licking her friends ass, Three busty students fuck this lucky guy at school! Capote é exatamente o oposto! Sem legenda fica foda!

sexta-feira, janeiro 11

falando sério

Quando aos 10 anos me imaginava com quase 30, me imaginava diferente, acho que com mais cara de gente grande, do jeito que os adultos deveriam ser... Ter um emprego normal, uma casa normal, uma mulher normal [se é que isso existe], e quem sabe, até filhos normais!

Tenho quase 30 e não tenho nada disso, o que na verdade não me surpreende. Nunca me achei normal, nunca quis ser normal... Pessoas normais me cansam, e o retrato de uma vida normal me lembra a cena de um velório: choro, vela e a família toda reunida a minha volta...


A questão é que há pouco tempo me fizeram a seguinte pergunta:

“Porra, mas o que você quer fazer da vida?”

Sem pensar muito respondi:

“Quero ler uns livros, dormir 10 horas por dia, conhecer Machu Picchu, jogar futebol toda quarta-feira e voltar embriagado de cerveja e churrasco pra casa, onde ela vai estar me esperando pra me ouvir dizer que é a melhor e mais linda mulher que um jogador de futebol frustrado e bêbado poderia querer!”

Acho que não contavam com essa resposta, talvez com algo mais objetivo e idiota do tipo:

“Quero trabalhar com arquitetura e construir edifícios residências em concreto armado pra sustentar minha família e adquirir minha casa própria!”

Enfim, interpretaram minhas palavras como gozação, como piada... E o pior é que pela primeira vez na minha vida eu tava falando sério!


segunda-feira, janeiro 7

nesse ano...

Quero não conseguir escrever tanta merda nesse Blog. Quero estar tão feliz e despreocupado com tudo e com todos que não tenha a mínima disposição para anotar uma mísera linha sequer, no máximo escrever meu nome na areia da praia, com meu pau interpretando o papel da caneta bic e o meu mijo travestido de tinta amarela. Quero estar tão envolvido com atividades prazerosas e libertinas, como conhecer outras culturas e novas línguas, que não consiga dedicar um minuto de meu tempo e energia à velha e maltratada língua portuguesa. Quero estar tão apaixonado e embriagado pela alegria contagiante da vida a ponto de interromper minha greve de escrita e contribuir na construção da orelha de um best seller qualquer de auto-ajuda. Enfim, mais alegria e menos melancolia!

quarta-feira, dezembro 19

dois caras

Era um daqueles caras apaixonados. Existia com tamanha intensidade que tudo à sua volta alcançava dimensões e significados inacreditáveis. Era capaz de transformar o trivial em sublime, de reconhecer no superficial as mais densas qualidades. Encarava o contingente com desconfiança, para ele, nada era fortuito, nada era acidental. Tudo era singular, único, e absolutamente indispensável de ser vivido.

Era um daqueles caras apaixonantes. Sem esforço fazia com que todos, de algum modo, o desejassem. Não existia um motivo óbvio pra isso, mas algo nele era diferente. Era dono de uma espantosa capacidade de fazer com que nada parecesse chato, desinteressante, menor. Ao seu lado o tolo sentia-se astuto, o sem graça era hilariante, e o mais prosaico dos mortais percebia-se, por alguns instantes, especial.

segunda-feira, dezembro 17

respostas de fim de ano

Não, Papai Noel não existe. Não, no Natal ninguém comemora o nascimento do menino Jesus, as pessoas só se empanturram de comida, enchem a cara de vinho, fazem brincadeiras idiotas do tipo amigo-oculto e colaboram para a felicidade geral dos comerciantes e dos fabricantes de Engov, Sonrisal e Sal de Frutas Eno... E acredite, elas fazem isso sem entender direito o porquê.

Não, Ano Novo não é sinônimo de vida nova, é só uma solução inteligente para mantê-lo esperançoso e resignado em relação às barbaridades da vida cotidiana. Não, as pessoas não estão e nem são felizes, elas só aparentam felicidade, assim como nos especiais de fim de ano da Rede Globo. Não, hoje não é um novo dia de um novo tempo que começou, as alegrias também não serão de todos [serão das mesmas pessoas do ano passado], e não se iluda, nossos sonhos não serão verdade, assim como a festa não é sua, não é nossa e muito menos é de quem quiser. A festa é só para convidados VIPs!

quarta-feira, novembro 28

repensando o futuro

Tenho andado demasiadamente preocupado. Em poucos meses não mais receberei a esmola “Federal” oferecida àqueles que pensam que sua produção “pseudo-intelectual-acadêmica" um dia terá alguma valia para a sociedade brasileira [na maioria dos casos, no lugar de a sociedade brasileira, leia-se: o seu próprio umbigo]. No momento estudo alternativas de vivência para o resto dos meus dias...

Ah, trabalhar não é uma alternativa de vivência, persigo a idéia de vida, não de sobrevida. A opção trabalho, emprego, ocupação ou outras derivações do gênero tornariam meus dias vindouros simplesmente insuportáveis, uma alternativa nada razoável! Prefiro ater-me aos ensinamentos de Paul Lafargue, Guy Debord, Raoul Vaneigem e Bob Black: VAMOS ABOLIR O TRABALHO!

Sendo assim, a primeira alternativa plausível seria ingressar em outro mestrado, e depois outro, e outro, e outro... Mas passar a vida ouvindo besteiras de gente com Phd em falar besteiras, cansa, sem contar que isso poderia me transformar em um Phd em falar besteiras ainda maior e melhor que todos eles juntos... Melhor não!

Poderia também fundar uma ONG pra salvar o mundo das cáries e levar a cultura a todos os povos oprimidos do planeta! Obviamente omitiria que a cárie nada mais é do que uma invenção maquiavélica dos dentistas pra ganhar dinheiro com obturações [assim como o vírus da AIDS é uma invenção das grandes corporações farmacêuticas pra vender AZT]! Guardaria ainda mais segredo sobre a real identidade da cultura, intimamente tratada pelos engolidores de mundo como a “mercadoria ideal”, aquela que nos obriga a comprar todas as outras mercadorias! Rararárarárarárárárá [Risada maléfica]! Mas criar uma ONG com esse perfil não seria nada original, existem milhares delas por aí!

Outra opção seria aprender a fazer uns artesanatos, uns brincos de arame com sementes de girassol, açaí... Peregrinar pelo Brasil sem tomar banho, cheio de tatuagem de henna pelo corpo e uma coleção de piolhos maior que a do Bob Marley! Mas isso é bicho grilo demais pra minha personalidade já moldada aos bons modos e às boas maneiras da classe dominante! E também não levo muito jeito pra esse tipo de atividade manual... Nada Feito!

Resta-me uma última alternativa...

Colocar uma mochila nas costas e ir de encontro ao velho continente, desfrutar de todas as vantagens científicas, culturais, econômicas e sociais que o 1º mundo pode oferecer a um pobre rapaz latino-americano:

Drogas sintéticas pela bagatela de 2 euros; haxixe marroquino de 1ª qualidade; cogumelos mágicos devidamente embalados e higienizados; cocaína, anfetamina e todas as “inas” possíveis e inimagináveis; praias de nudismo; casas de prostituição; ninfomaníacas suecas, dinamarquesas, polacas, ucranianas, eslovacas, tchecas, russas... Ah, e ainda falta a melhor parte: uma malha metroviária interminável, onde poderei jogar malabares pelo resto dos meus dias, ganhando muito mais dinheiro e comendo muito mais gente do que um professor universitário no Brasil!

segunda-feira, novembro 26

fina indigestão

Sinto uma vontade quase incontrolável de vomitar. Vomitar toda a minha cordialidade, meus bons modos, minha postura socialmente adequada. Vomitar todo o meu senso de civilidade, minha formação politicamente correta, minha sensatez, minha educação. Sinto uma vontade quase incontrolável de vomitar toda essa merda.

Não, não quero vomitar escondido, abraçado a privada fedida de um banheiro qualquer. Quero vomitar na rua, nos corredores dos edifícios comerciais, na porta dos restaurantes, nas mesas de bar. Quero vomitar nos auditórios das universidades, nas academias de ginástica, nos consultórios médicos. Quero vomitar nos postos de gasolina, nas lojas de conveniência, no banco cheirando a novo do automóvel zero quilômetro. Quero vomitar nas pessoas, em seus cabelos bem cortados, em suas barbas bem feitas, em suas roupas de festa. Quero vomitar em tudo, para que todos sintam o cheiro do mais podre que guardamos dentro de nós.